Fãs, discursos e radicalismos

Mas também o que esperar
Fandoms tem um problema grave de fanatismo e intolerância, junto com um apego doentio à versões de sua obra amada que não conferem com a realidade da mesma. Isso é uma questão antiga que parece ser tão antiga quanto a própria existência de fandoms.
O capitão da cabeça de muitos fãs... não é o de Simon e Kirby.
O capitão da cabeça de muitos fãs… não é o de Simon e Kirby.
Os extremos dos discursos digitais sobre quadrinhos, literatura e cinema são um caso interessante. De um lado, temos uma brigada conservadora que espuma pela boca caso haja um único personagem não hetero-branco-cristão em suas revistas e insiste em reescrever a história dos personagens para confirmar suas posições (vide dizer que Steve Rogers sempre foi conservador). No extremo oposto, visto primariamente em redes sociais “alternativas” como Tumblr e Archive of our own, temos uma brigada “progressista” que espuma pela boca alegando homofobia sempre que seus headcanons sobre o herói X ser gay/bi/ace/trans não se concretizam.
 
Os dois lados demonstram simultaneamente um interesse patológico E uma total falta de interesse pelo seu objeto de adoração. Se apegam violentamente ao material que existe em suas cabeças – com todas as suas leituras que não condizem com o que está impresso/gravado/filmado- e com a pureza desse material… muitas vezes sem sequer lê-lo.
 
Não raro, ambos acusam aqueles que não compactuam com suas leituras de “não serem fãs de verdade”, de não entenderem a obra e de secretamente a odiarem e a sabotarem.
 

LADO A: O ódio conservador por Windblade

 
Um bom exemplo é a relação de ódio de parte do fandom de Transformers com a escritora Mairghread Scott, roteirista das revistas Windblade e Till All Are One, e a a personagem título de Windblade. Para uma parcela considerável do fandom de Transformers, Windblade é uma abominação superpoderosa que não deveria existir, uma imposição do “politicamente correto” e “das feminazis” que “está arruinando a franquia”. Estes fãs alegam que a personagem “não tem lugar na franquia”, “é poderosa demais” e “é só uma “Mary Sue” sem defeitos”. Os mesmos nada sutilmente questionam a competência de Scott, insinuando que ela obteve a posição mediante serviços sexuais.
Windblade: para parte do fandom, uma Mary Sue invencível. Na realidade, uma política perdida.
Windblade: para parte do fandom, uma Mary Sue invencível. Na realidade, uma política perdida.
Para esta parte do fandom (que por um bom tempo contou com o apoio do renomado roteirista Simon Furman, antes dele ser punido pela IDW e pela Hasbro por seus comentários), a produção atual da franquia é um crime contra a “excelente” série original (um comercial de brinquedos de meia hora) e os “geniais” quadrinhos dos anos 80 (Uma ficção científica B) e Scott é a causa, o sintoma e a fonte dessa “degeneração”.
Nem entremos no piti que o fandom deu com esses dois...
Nem entremos no piti que o fandom deu com esses dois…
Isso, é claro, ignorando que Scott, junto com John Barber e James Roberts, tratou de fazer um quadrinho sobre política onde antes havia um comercial de brinquedos pautado unicamente em nostalgia. A personagem invencível das “críticas” dos fãs (raramente mais do que insultos), por sua vez, inexiste: a Windblade de Scott é uma figura complexa, conflituosa e que até o momento só obteve sucesso parcial em uma de suas empreitadas – sucesso esse que virou um fracasso quando sua tentativa de privar seu antagonista de poder acabou dando a ele mais poder.
 
Mas o ódio da ala reacionária da fanbase pela personagem antecedia seu surgimento em quadrinhos: antes mesmo de sua primeira aparição, quando a personagem foi anunciada como resultado de uma votação de fãs em 2013, já abundavam acusações de que ela seria “uma Mary Sue”. Fãs revoltados acusaram a Hasbro de fraudar a votação; para eles, a personagem só era feminina “por imposição das feministas” e sua presença “violava o cânone que estabelece transformers como não tendo gênero” (pois como sabemos: masculino=neutro) – ignorando que transformers mulheres existem desde 1985.
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“Sexual demais”, eles disseram….

 

O ultrage se repetiu no ano seguinte, com a Combiner Victorion, onde as acusações de “imposição das feministas” se somaram a um discurso bizarro alegando que mulheres combiners “adicionavam um elemento sexual desnecessário à franquia” (ignorando que, se uma fembot participando de uma combinação=sexo, todo combiner antes dela – salvo pelo Micromaster Sixturbo – era uma orgia gay). Curiosamente, os mesmos que se ultrajaram com Windblade e Victorion ficaram maravilhados com a versão japonesa dos moldes da segunda, Megatronia – um conjunto de caricaturas hipersexualizadas (como a maioria das personagens femininas nos quadrinhos que acompanham a linha Legends japonesa) que são más por “quererem por mulheres no poder” e não tem muita personalidade além de serem um harém lésbico para sua líder e um conjunto de ex-namoradas e stalkers para a linha A do Decepticons.
...mas os mesmos que assim o disseram não viram problema nisso.
…mas os mesmos que assim o disseram não viram problema nisso.

DO OUTRO LADO: “Harry Potter é indiano e se você discorda você é racista”.

 
No outro extremo, temos uma parcela radical (dentre as muitas parcelas radicais) do Fandom de Harry Potter. Centrada no Tumblr, uma parte do fandom da série de J.K. Rowling criou a tese (infundada) de que o protagonista da franquia era meio indiano – e passaram a acusar outros fãs e os filmes de whitewashing ao não reconhecer a verdade óbvia de que Harry SÓ PODIA ser indiano, estava na cara – mesmo sem qualquer descrição que sustentasse a tese.
No twitter, sugestões delicadas. No tumblr, as mesmas sugestões viram ataques e alegações de que Rowling seja uma supremacista branca.
No twitter, sugestões delicadas brincando que a autora esteja errada sobre seu personagem. No tumblr, as mesmas sugestões viram ataques e alegações de que Rowling seja uma supremacista branca.

 

Para essa parte do fandom, o ódio dos Dursley pelos pais de Harry não se deviam ao conservadorismo de ambos e a inveja intensa que Petúnia tinha por sua irmã bruxa, mas pelo fato de Lilian Evans-Potter ter se casado com “uma pessoa de cor”. Segundo eles, Potter seria claramente uma anglicanização de Puttar (tirado da comédia pastelão indiana Hari Puttar, que parece ter sido uma das raízes da teoria mirabolante) e o motivo dos Dursley maltratarem e “esconderem” Harry não é uma relação de abuso, mas de racismo e xenofobia – chegando ao ponto de alegar que relações como a entre Harry e os Dursley não existem sem ser por racismo.
 
Enquanto o fandom de Transformers foca sua raiva na autora que vem como fonte da corrupção da imagem perfeita que tem da franquia (e ignora que Windblade foi criada por voto e introduzida por um homem, James Roberts), o de Harry Potter demonstra o comportamento tóxico de fãs para com outros fãs, atacando fanartists e autores de fanfic por “apagarem” a etnia do bruxo, não raramente ameaçando e assediando os “agressores”.
 

MAIS UM CASO: O Homem-Aranha e os nervos dos dois lados.

 
Encerrando, mais um pequeno caso de radicalismo e de interpretações esdrúxulas por parte de fãs, temos Peter Parker, o Homem-Aranha, e seu sucessor, Miles Morales…. o Homem-Aranha. Um pequeno marco para a representatividade na editora, o herói afro-latino foi alvo da ira dos “puristas” na fanbase do herói.
 
Sucedendo a versão Ultimate do cabeça de teia em 2011, Miles Morales fez manchetes por ser uma reinterpretação negra e latina do herói, motivada por um discurso do ator Donald Glover, suscitado pela alegação de fãs de que um Homem-Aranha negro não seria “crível”. Nenhum desses fãs deu motivos pelos quais Parker não poderia ser negro – algum elemento que tornasse-o necessariamente branco – ou que impedisse ele de ser interpretado por um ator que não fosse branco (Parker é implicitamente um judeu étnico – explicitamente protestante em termos religiosos – nos quadrinhos, mas nenhum de seus interpretes no cinema o era – e seus intérpretes mais recentes, Andrew Garfield e Tom Holland, são ingleses).
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Quando Morales foi introduzido, assumindo o lugar do Peter Parker de seu universo (morto em uma batalha contra o Duende Verde), a mesma parcela do fandom que alegava que um Parker negro “não seria crível” entrou em ebulição. Sem ler a revista, fãs mais conservadores teciam longas críticas (carregadas de racismo nada disfarçado) ao novo personagem, alegando que ele ia “roubar os bandidos” ao invés de detê-los e que a Marvel estava “desrespeitando o herói ao fazer dele um meliante”. Alguns foram além do simples racismo, criando um discurso recorrente de que o novo Homem-Aranha “era um traficante gay” ou “transexual”.
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Em uma ala menos reacionária do fandom, parte dos fãs – também sem ler a revista – reclamavam da “preguiça” da Marvel, que “ao invés de criar um personagem novo, transformaram o aranha em um negro”. Para essa ala, não lhes ocorria que Miles ERA um personagem novo e que Parker continuava no universo 616; o mesmo aconteceu com Kamala Khan, subsitituindo Carol Danvers como a Miss Marvel (que havia se tornado a Capitã Marvel); Jane Foster (A Thor); Sam Wilson (Capitão América) e Riri Williams (Homem de Ferro): em todos os casos, parte dos fãs se demonstraram incapazes de entender que estes eram personagens novos, não os velhos “transmutados”.
 
Do outro lado, em tempos mais recentes, uma parte da fanbase mais progressista passou a afirmar que Morales não bastava: Parker havia de ser reescrito como negro e ter toda sua história de vida repensada. Sua narrativa sobre responsabilidade pessoal, movida por ter deixado um ladrão fugir quando poderia facilmente impedí-lo, levando posteriormente à morte de seu tio, não cabia mais: Parker tinha que se tornar um símbolo da violência policial, motivado pela morte de seu tio nas mãos de um policial racista – qualquer outra coisa seria “prova” do “racismo” da editora e “enfraquecia”  a narrativa.
 
Neste aspecto, os dois lados se diferenciam bastante: enquanto os fãs “puristas” exigem que se preserve um texto sacrosancto (que não bate com o real, muitas vezes precário e altamente comercial), os neo-progressistas exigem que ele seja reescrito – e isso ocorre interminavelmente dos dois lados.
Super importante e lembrado.
Super importante e lembrado.
Conservadores deram rebú quando Alan Scott – vulgo o lanterna verde que ninguém conhece – passou a ser gay com o reboot radical do Novo 52; Progressistas deram um piti quando a Marvel não reescreveu o Capitão América para ser gay e ter James “Bucky” Buchanan Barnes como namorado (ignorando que a relação de amizade que eles tem nos quadrinhos não é nada parecida com a dos filmes e que há uma diferença de CINCO ANOS entre os dois nos quadrinhos). “Puristas” espumaram pela boca com a Menina da Lua – releitura de um personagem velho de Jack Kirby que nunca fez sucesso – e que era um pé grande), enquanto “revolucionários” exigem que Kate Bishop, a Gaviã Arqueira, seja reescrita como sendo asiática – chegando ao ponto de propor que se criem noticías falsas para “obrigar” a editora a fazê-lo para não parecer racista. Em alguns recônditos do Tumblr, páginas editadas da Mulher Maravilha buscam “provar” que a personagem é trans, enquanto conservadores fazem tudo ao seu alcance para negar a sexualidade das personagens de Steven Universe.
Valerian: acusado gratuitamente
Valerian: acusado gratuitamente
Há quem sugira forjar páginas de revistas antigas para “provar” que esse discurso – seja de que lado for – é “a verdade” e sempre foi a intenção do autor – assim como não falta quem use de alterações recentes no cânone (muitas delas descartadas) como prova. Não faltou quem condenasse a “misoginia” do filme Valerian e A Cidade dos Mil Planetas por “apagar” Laureline do título – quando a personagem só foi adicionada ao título da revista em 2007, e o quadrinho é uma rejeição do “machismo” do típico herói espacil. Assim como não há carência de fãs obstinadamente defendendo que Dick Grayson, o primeiro Robin, foi criado como “um ícone Rromani” – ignorando que sua erança Rromani foi estabelecida em 2000 por Devin Grayson, décadas após sua criação… para explicar como Grayson entendia tanto de furto. O traço bizarro de Steve Ditko foi usado usado como prova de que Stephen Strange “sempre foi asiático” (inclusive por Kurt Busiek – que estranhamente nunca usou disso para provar que Harry Osborn era marciano), ignorando que o personagem era baseado no ator Vincent Price. A ultra nacionalista versão Ultimate do Capitão América – quando não o Agente Americano – são frequentemente utilizadas por conservadores como prova de que Rogers é um nacionalista branco conservador. E mais recentemente, os apoiadores do roteirista Nick Spencer passaram a alegar que “essa história do Magneto ser sobrevivente do holocausto é invencionice do cinema”, como forma de defender a inclusão dele na Hydra.
 

Enfim.

 
Os discursos de fanbases são marcados por duas coisas bem claras: intolerância e seletividade. Ambas em graus extremamente elevados. A história é reescrita ao bel prazer de “fãs” revoltados, que atacam a esmo qualquer um que não pense como eles – podando e escavando pequenas passagens de texto fora de contexto que os provem como estando certos, enquanto acusam todos que discordarem de “estarem arruinado a série/filme/quadrinho/livro” ou de serem racistas/machistas/homofóbicos.
 
Mas via de regra, que se vê é uma leitura que só existe na cabeça do orador: sem relação com o texto ou com a realidade. Vão das mais simples às mais alucinadas (como a de uma jornalista americana, que viu em Darth Vader um discurso racista pois “quando ele rejeitava o filho ele era dublado por um negro, mas quando ele o aceita e se torna bom, ele passa a ser branco” – ignorando totalmente que é O FILHO que o rejeita, não ele que rejeita o filho). Mas sempre são marcadas pela certeza absoluta de que qualquer discurso em contrário é sinal dos “opressores”, dos “haters” e “dos comunistas”.

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