Tropas Estelares, Earthsea e etnicidade em adaptações

Jonny Rico nos cinemas: de filipino a holandês.

Certas obras não dão sorte quando o assunto é a etnia dos seus personagens. O clássico “Tropas Estelares” de Robert A. Heinlein é um bom exemplo: protagonizado pelo filipino-argentino Juan “Jonny” Rico, a obra foi levada às telas quatro vezes (em vídeo, filme, como uma minissérie para TV e um filme animado) nenhuma das quais preservou a etnicidade do protagonista.

Rico no OVA da Sunrise: branco e loiro.
Rico no OVA da Sunrise: branco e loiro.

No OVA Uchuu Senki, de 1988, pelo estúdio japonês Sunrise, no lugar do filipino dos livros temos um Rico de pele clara e cabelos loiros; a minissérie também trocou a bronzeada Carmencita Ibañez por uma Carmen pálida de olhos azuis claros.

Em 1997, levada aos cinemas por Paul Verhoeven, a obra teve seu protagonista trocado pelo alvo John “Johnny” Rico, interpretado por Casper Van Dien; a mudança foi intencional, motivada pelo caráter do filme como uma sátira do livro (lido pelo diretor holandês como uma apologia ao fascismo) na forma de um filme de propaganda dentro de universo. Para Verhoeven, o estado militarista e fascista proposto por Heinlein teria como seu “herói nacional” um “übermensch” ariano, reforçando o paralelo entre a sociedade ideal proposta por Heinlein e a Alemanha nazista.

Rico em Invasion: não mais loiro, mas também não filipino
Rico em Invasion: não mais loiro, mas também não filipino

Na série animada “Roughnecks: Starship Trooper Chronicles“, de 1999, Rico perdeu os cabelos loiros e os olhos azuis (assim como Carmen perdeu os olhos claros de sua atriz, Denise Richards – mas manteve o tom de pele de Casper Van Dien, assim como o nome anglicano da versão cinematográfica.

Em 2012, uma nova adaptação de Starship Troopers, Invasion, seguiu de onde os filmes haviam parado. Dirigido por Shinji Aramaki, o filme animado trazia um Rico de cabelos escuros (tal qual no livro) mas com a mesma pele alva e os olhos azuis de Casper van Dien. Há outra adaptação de Starship Troopers à caminho – resta saber se desta vez teremos um Rico filipino, ou se a versão produzida por Megan Ellison e Neal H. Moritz – ainda sem diretor ou data para lançamento – terá mais um rico branco.

Legend of Earthsea: onde antes havia um grupo diverso, um mar de gente branca e um único negro.
Legend of Earthsea: onde antes havia um grupo diverso, um mar de gente branca e um único negro.

Tropas estelares não foi a única obra a ser repetidas vezes branqueada: a série Earthsea, de Ursula K. LeGuin, teve seus personagens embranquecidos duas vezes em uma única década. Levada as telas em uma adaptação muito livre pelo Sci-Fi em 2004, a minissérie trocou todos os personagens negros e pardos do livro por brancos (com uma única exceção), entre outros erros de adaptação.

Em 2006, uma outra adaptação livre, Tales From Earthsea, do estúdio japonês Ghibli, descartou os personagens negros do livro completamente. Em seu lugar, um dos melhores exemplos do estilo de design conhecido como mukokuseki (無国籍 – lit: sem identidade), padrão em animação japonesa: pele clara, olhos grandes e traços vagos, sem conexão com grupos étnicos reais. A etnia, portanto, fica não no traço, mas no olhar dos espectadores. Nem todo anime usa deste tipo de design, e várias optam por um traço mais realista, com feições étnicas claramente visíveis (como a meta série Gundam)

Tales from Earthsea: personagens deliberadamente extirpados de etnicidade.
Tales from Earthsea: personagens deliberadamente extirpados de etnicidade.

Desprovidos de traços específicos, estes personagens podem servir como stand-ins dos espectadores, quaisquer que sejam a sua nacionalidade – contanto que tenham pele clara; enquanto personagens japoneses, brancos e semíticos são representados tradicionalmente como Mukokuseki, indianos, negros, indígenas chineses, ainu e outros grupos “étnicos” são alvo de seu próprio conjunto de clichês de design. Onde o livro trazia uma grande gama de etnias (com poucos personagens brancos) o filme animado traz uma grande gama de… tons de bege, indo do “branco” ao “vagamente árabe”, com uma única exceção em seu vilão Cob – mais pálido que o resto dos personagens. A adaptação também trocou as queimaduras de terceiro grau da protagonista Therru por uma leve mancha vermelha no rosto.

Kouji Kabuto: japonês para ser normal - não por intenção discursiva
Kouji Kabuto: japonês para ser normal – não por intenção discursiva

É tentador comparar esses casos com a escalação de atores “étnicos” (leia: não brancos, como se etnias europeias não fossem etnias) para papéis tradicionalmente brancos, ou a sucessão de títulos antes brancos por personagens “étnicos”. No entanto, onde a etnicidade de muitos personagens brancos é incidental – isto é: o fato do personagem ser branco não é fruto de intencionalidade e não tem impacto narrativo; a branquitude de um Peter Parker, Arthur Curry (Aquaman) ou a niponicidade de um Kouji Kabuto não são fruto de uma decisão deliberada por um protagonista daquela etnia tanto quanto uma decisão pela “normalidade”. Diferente da escolha de Heinlein por um Rico filipino (distanciando sua utopia militarista do discurso racial dos movimentos fascistas), da escolha de Joe Simon e Jack Kirby por um Capitão América “Ariano” (tornando um “ubermensch” o maior inimigo do nazismo) e imigrante irlandês (fazendo o maior símbolo dos EUA ser um imigrante, de um grupo étnico menosprezado), da negritude de um Sam Wilson ou um T’Challa (criados especificamente para representar afro-americanos e africanos, respectivamente) ou a origem curda de Soran Ebrahim (parte do discurso político de 00).

Aladdin: eternamente mal representado
Aladdin: eternamente mal representado

Mas claro, poucas obras sofrem mais com isso do que Aladdin: descrito como sendo chinês na versão original da história (escrita pelo tradutor francês Antoine Galland), o ladrão que se vê na posse de uma lampada mágica foi interpretado por atores brancos maquiados para parecerem árabes, desenhado como vagamente semita na versão da Disney, e retratado como um mukokuseki baixo, pálido e de olhos azuis na série japonesa Magi; a vaga cidade chinesa do conto de Galland (que parece não ter feito pesquisa alguma, dada a abundância de nomes árabes na trama) foi trocada por Bagdá no filme de 1940 “O ladrão de Bagdá“, e pela fictícia Agrabah no longa animado da Disney. Sempre esquecendo que o herói da obra – ao menos segundo seu mal informado narrador – era para ser um rapaz chinês.

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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