Entrevista: jovem joinvilense é destaque em nível nacional por projeto social em escolas da cidade

Nos últimos cinco anos, pelo reflexo de uma enorme crise econômica e política que assolou o país, uma grande nuvem de pessimismo perante a moral humana ficou latente na cabeça de muitos dos brasileiros, criando desconfiança sobre qualquer perspectiva de melhora. Felizmente, existem pessoas que ajudam a quebrar esses prognósticos negativistas, através da iniciativa de pequenas ações que resultam em incríveis resultados.

Hoje, conto-lhes a história de uma dessas pessoas que fazem a diferença de algum modo, e aqui em Joinville. Esta pessoa é Bruno Amancio, jovem de 21 anos, nascido e crescido na cidade, prestes a se formar em história pela Unicamp e que tem muito orgulho de ter desenvolvido os seus conhecimentos na educação pública. Bruno, na pequena conversa abaixo, explica como ajudou a desenvolver o Projeto Rugby nas Escolas e como ele conseguiu destaque por potencializar essa ideia, além de salientar a fundamental importância dos frutos que isso gera na sociedade.

Bruno (ao centro, de camisa preta com uma faixa amarela) e seus alunos do Projeto Rugby nas Escolas

Olá Bruno. Primeiramente, conte-nos quando foi o seu primeiro contato com o rugby e o que te fascinou nele de imediato.

Eu tinha quase 15 anos quando aconteceu, estava jogando futebol em um complexo esportivo, perto da minha casa, quando avistei um pessoal jogando um esporte diferente. Eu já conhecia o Rugby pela TV, então soube na hora qual era o esporte diferente que o pessoal jogava. Não tinha nenhum adolescente jogando com eles, alguns assistindo apenas, então eu pedi para entrar em campo e jogar. O pessoal deixou, pegou leve comigo, e eu gostei do que fiz. Foi quando me bateu o interesse em me aprofundar mais sobre o jogo. Desde lá, já se passaram 7 anos. Eu pude entender melhor tudo o que acontece dentro e fora do campo, toda a organização por de trás de uma partida, toda a camaradagem envolvida, o espírito de trabalho em equipe, o sentimento de irmandade. O rugby te faz sentir parte de uma família universal, onde em qualquer parte do mundo que você vá, você será bem acolhido por seus parceiros de esporte. Digo isso de experiência própria.

No Brasil, naturalmente o futebol é o esporte com maior popularidade e apelo. Qual é o panorama e as dificuldades para o desenvolvimento do rugby em nosso país?

Como em qualquer outro esporte, a verba é escassa. Não há dinheiro em nosso país para outros esportes a não ser o futebol. No rugby não é diferente. Passamos por dificuldades financeiras constantes. Temos que saber sobreviver com pouco, mesmo os gastos sendo muitos. O rugby apresenta, no Brasil, um problema que acentua ainda mais essa dificuldade; É um esporte desconhecido. Pouca gente sabe o que é o rugby, e muitos o confundem com o Futebol-Americano. Isso torna ainda mais complexa o ato de se conseguir dinheiro. O rugby é o esporte coletivo que mais cresce no país, porém não existem braços suficientes para abraçar todo esse desenvolvimento. Hoje poucos atletas conseguem receber para jogar, e a maioria vem de verbas do governo destinadas a bolsa atletas ou da lei de incentivo ao esporte. Não há patrocínio, apenas a cara e a coragem de poucos.

Você foi um dos vencedores, em nível nacional, do Prêmio Ryla. Conte-nos um pouco de como ocorreu a sua entrada no projeto e como foi o desenvolvimento do que foi proposto.

Não foi fácil… Assim que descobri sobre o Prêmio, logo fui atrás de ajuda para reestruturar um projeto antigo que eu já desenvolvia. Pude contar com um amigão meu, o Antônio K. Neto. Assim que nos organizamos, começamos a pô-lo em prática. o PRUNE – PROJETO RUGBY NAS ESCOLAS, é um programa que visa levar rugby a alunos de escolas públicas de bairros que vivam em vulnerabilidade social. Além de ensinar rugby, o projeto visa demonstrar valores práticos de ética e cidadania, e assim criar o espírito de questionamento e uma leva de cidadãos melhores para nosso mundo. De cara abraçamos os bairros Jardim Paraíso e Vila Cubatão. Conversei com diretores das escolas trabalhadas, e organizamos um sábado de rugby em cada escola. A partir daí, começamos a trabalhar semanalmente em cada colégio para desenvolver o esporte com os alunos. Hoje com quase 4 meses de Projeto, temos cerca de 40 alunos participando. Vale a pena lembrar que só conseguimos realizar o PRUNE com a ajuda de parceiros como a DECATHLON JOINVILLE, e o JOINVILLE RUGBY CLUBE.

Bruno (em pé, à esquerda) e alunos da Escola de Ensino Básico Prof. Nair da Silva Pinheiro, da Vila Cubatão.

Os vencedores foram convidados a participarem de um evento socio-cultural em São Paulo, certo? O quê você pode destacar dessa experiência com gabaritados palestrantes e jovens idealistas?

Foi de imediato um choque cultural. Gente de todo o país, com as mesmas idades e com a mesma vontade de mudar o munto, foi incrível! Pude ver como o meu projeto foi simplório. Teve jovens de outros Estados que criaram casas para moradores de favelas, outros reformaram praças públicas, ensinaram a crianças, jovens e anciões, contaram histórias, trabalharam em hospitais… Muita vontade de aplicar o bem! As palestras foram coisa de outro mundo. PHD’s, Doutores e Mestres, estavam de livre vontade nos auxiliando à encontrar as melhores formas de aplicar nossos projetos e torná-los mais sustentáveis. O empreendedorismo foi a chave para todo o Prêmio Ryla (ROTARY YOUNTH LEADERSHIP AWARDS), e como lidar com ele em um país tão deturpados como o Brasil, foi o incentivador para que nossos projetos floresçam, e para que nós, jovens, pudéssemos dar mais um passo em nossa caminhada para mudar o mundo.

Sei que o seu projeto de levar a prática esportiva à crianças é anterior ao Ryla. O que te impulsionou a concretizar essa ideia? E, em sua visão, quais os benefícios que o rugby trouxe para esses jovens?

Giovanni, faço o Projeto Rugby nas Escolas desde 2015, quando tinha 19 anos. Como estou me formando em História, e segurei a área pedagógica, tive a ideia de juntar minhas duas paixões, o rugby e o educar. Eu fui atleta juvenil, sei o quanto o esporte pode mudar a vida de um jovem. Minha ideia sempre foi de oferecer à jovens em situação de vulnerabilidade as mesmas possibilidades que eu pude ter quando mais novo. Hoje, depois de 2 anos de Projeto, já me alegro em ver resultados. Através do projeto, três rapazes, que hoje jogam pelo Joinville Rugby Clube, puderam ser selecionados para a Seleção Catarinense de Rugby. Aliás, em Novembro o Joinville Rugby conseguiu ser Campeão Catarinense de Rugby Juvenil com mais de metade do time vindo do PRUNE. Outro orgulho que surgiu do Projeto, é minha irmã, que com pouco menos de 2 anos de rugby pode chegar à Seleção Brasileira de Rugby Juvenil, e ano que vem disputará uma vaga nas Olimpíadas da Juventude. Em pouco tempo de Projeto já podemos ver uma grande evolução no desenvolvimento do esporte na cidade, temos agora que dar continuidade no PRUNE, e em 2018 teremos novidades. O Projeto Rugby nas Escolas se tornará um Clube independente e visará o profissionalismo do esporte, enquanto desenvolve a cidadania em bairros atingidos pela desigualdade social.

Fruto do projeto em Joinville, esses três garotos foram selecionados para a Seleção Catarinense de Rugby.
Talita, irmã de Bruno, também fruto do projeto, que conseguiu chegar a Seleção Brasileira de Rugby Juvenil.

Podemos afirmar que o voluntariado, seja por órgãos não-governamentais ou ações independentes, minimiza consideravelmente as fragilidades – principalmente na educação e na cultura – das políticas públicas?

Com certeza! Os trabalhos voluntários servem para diminuir as mazelas criadas por nossas sociedade desigual, distribuindo saber, cultura, saúde e muitas outras coisas à quem precisa. Ser voluntário é ter o pensamento que a coletividade é importante, que as mudanças são necessárias, e que as ações só acontecem se houver quem te apoie. O PRUNE apoia crianças e jovens que, quase sempre, nunca tiveram outra oportunidade de vida senão o tráfico. Outros projetos sociais de nossa cidade tem finalidades mais caridosas, ou os mesmos fins, o importante é que o voluntariado é a população mostrando que quer mudanças, e não só isso, o voluntariado é a população realizando mudanças. Mostra que é o povo quem precisa mudar, para que o país mude, e por esse motivo, particularmente, eu me tornei um ser voluntário. Ajudar a fazer o bem é o melhor prêmio que se pode ganhar em uma vida inteira de batalhas.

Muito obrigado pelo espaço cedido, foi um prazer poder participar deste incrível portal cultural de nossa tão amada Joinville!!

BRUNO AMANCIO
Coordenador e professor do PRUNE- Projeto Rugby nas Escolas*

br.amancio@outlook.com
(47) 9 9946-0982

*Em 2017 o PRUNE ganhou o PRÊMIO RYLA, desenvolvimento de liderança juvenil, do Rotary Club.

Um parte da história do Joinville Rugby Clube, como um todo, pode ser conferida com mais detalhes aqui.

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Giovanni Cabral
Sobre Giovanni Cabral 27 Artigos
Um genuíno caipira hipster das sombras que aprendeu a lidar melhor com os seus fracassos do que com qualquer vitória ilusória. Aqui e em outros escombros da internet, sou divulgador, pseudo-crítico e produtor de arte.

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