De horrores e robores*

Criado para nos salvar, a perdição do universo: Getter Emperor.
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Big O: horror existencial com robôs gigantes. Algo diferente, mas que merece ser citado.

Existe um gênero de ficção que costuma ser muito desprezado por leitores de quadrinhos. Um gênero que esteve para o quadrinho japonês como os super heróis ainda estão para os quadrinhos americanos e que divide com este uma importância simbólica. Falo dos super robôs, o velho gênero dos quadrinhos e desenhos japoneses onde uma máquina gigantesca pilotada por jovens destemidos enfrenta as forças do mal.

 

Enquanto no ocidente esse é cada vez mais um gênero esquecido (salvo por alguns raros destaques como Tengen Toppa Gurren Lagann e a recente produção do Netflix Knights of Sydonia) e ignorado pela maioria dos leitores, com a exceção de alguns aficcionados, no Japão as histórias de gigantes mecânicos (ou não mecânicos; alguns são estátuas, ciborgues, deuses dados forma…) ainda fazem sucesso no Japão, embora cada vez menos. O desconhecimento sobre o gênero no ocidente é tão evidente que a “carta de amor” de Guillermo del Toro aos super robôs, Pacific Rim, foi acusada de plagiar Shin Seiki Evangelion, como se esta tivesse inventado a ideia de robôs gigantes para enfrentar monstros.

 

Essas duas obras, no entanto, servem como exemplos de uma ligação muito esquecida: a dos super robôs com o horror. Ironicamente considerado como o mais otimista dos dois grandes tipos de histórias de mecha (o outro, real robot, estabelecido em 1979 por Mobile Suit Gundam, tomado primariamente por dramas de guerra, é considerado o mais cínico), o gênero de Super Robôs apresenta uma realidade onde o mundo se vê ameaçado por monstros gigantes, invasores alienígenas e conspirações criminosas. E uma parte dessas narrativas, essas coisas são apenas o nível superficial de uma narrativa de horror onde não há esperança, e nossa única salvação talvez seja nosso maior inimigo.

 

Eva-01_berserk_howlPacific Rim é um caso onde o cenário aterrador (em que a humanidade se encontra sob ameaça constante de monstros cada vez mais fortes) serve para realçar o caráter salvador dos salvadores mecânicos. Já Evangelion pertence a outra vertente (e que ao contrário do que seus fãs acreditam, não começou com ela): a de séries onde o salvador criado pelo homem é um perigo ainda maior que os monstros que foi feito para combater.

 

Essa vertente é quase tão antiga quanto as histórias de super robô. Na obra seminal do gênero, Mazinger Z, do hiper produtivo Go Nagai, o robô título tinha o “potencial para ser um deus ou um demônio”, dependendo de como fosse usado, e a noção de que ele pudesse ser poder demais para as mãos mortais era um tema recorrente. No entanto, Mazinger Z é um dos mais claros exemplos do super robô como um super herói “grande”. Enquanto a tecnologia por trás dele era uma ameaça em potencial, o centro de Mazinger (e seus sucessores, Great Mazinger e UFO Robo Grendizer) era um grupo de heróis científicos e seu incrível robô como a última linha de defesa contra um império do mal (Doutor Hell, em Mazinger Z; o Império Mykene em Great Mazinger e a Aliança Estelar Vega em Grendizer).

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VdKQmYBO aprendiz de Nagai, Ken Ishikawa, foi quem realmente inverteu essa narrativa, com seu Getter Robo. Da mesma maneira que o cientista Juzo Kabuto de Mazinger Z, seu Professor Saotome criou um robô incrível com uma fonte de energia desconhecida. Esse gigante metálico (composto por três caças, Eagle, Jaguar e Bear, pilotados inicialmente pelo violento artista marcial Nagare Ryoma, o genial sociopata Jin Hayato, e o afável judoca Tomoe Musashi) é a única linha de defesa da terra contra o império reptilianóide. E é também a maior ameaça para o universo. O conceito por trás de Getter é simples: quando Saotome “deu vida” a sua criação infundindo-a com a energia cósmica dos misteriosos Raios Getter (a energia da evolução e da vida), o cientista deu para aquela força cósmica o semblante de uma pessoa – e junto com a forma, foi lentamente lhe dando a consciência.

 

yP4X29MAo longo dos mais de 30 anos de publicação de Getter Robo, os raios getter e seus invólucros se tornaram cada vez mais conscientes. Sua influência torna-se uma obsessão do cientista. O segundo Getter (Getter Robo G) é consumido junto com seu piloto por sua fonte de energia. Forças do futuro parecem dedicadas a destruir o terceiro (Shin Getter Robo) antes que se torne um perigo, e num futuro distante, uma frota movida aos raios getter e liderada pelo gigantesco Getter Emperor ameaça destruir toda vida no universo. A trama geral de Getter (nunca finalizado, devido a morte do autor em 2006) é simples: Saotome deu consciência para a força por trás da própria vida. Essa força escolheu o Getter e os humanos (ou melhor: a união dos dois) como a vida “certa” e não permitirá que nada impeça que essa vida “perfeita” domine o universo.

 

Tengen Toppa Gurren Lagann: o poder descontrolado da energia espiral.
Tengen Toppa Gurren Lagann: o poder descontrolado da energia espiral.

Getter Robot continua a ser o maior representante desse estilo de super robô, mas está longe de ser o único. No já mencionado Evangelion (1996), os Evas clonados do enigmático organismo Adão são a única proteção da humanidade contra os bizarros anjos que a ameaçam, mas também são a chave para o fim do mundo. Em Ideon (1981) o misterioso robô desenterrado por colonistas no planeta Logo Dau é sua única proteção em uma guerra galática e ao mesmo tempo é a personificação de uma inteligência cósmica que está guiando os dois lados do conflito para sua extinção. O gigantesco Zearth de Bokurano (2003-2009) é a salvação da terra contra os horrores extra-dimensionais que a atacam, mas cobra um preço elevado por seu uso. A mesma energia que permite que Gurren Lagann (2007) conceda liberdade à humanidade ameaça destruir o universo. Por baixo do verniz de aventura e heroísmo esconde-se um perigo iminente resultante de nossas ações.

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Getter adiciona uma outra dose, tão demasiadamente humana, ao horror: todos os vilões de Getter Robo são consequência direta de usar os raios getter como fonte de energia. O império reptilianoide retorna a superfície porque a radiação que os impedia diminiui; o conjunto seguinte de vilões, O império dos 100 demônios, surge como resultado de alienígenas no futuro tentarem destruir o Getter antes que ele se torne uma ameaça para todo o universo. Cada novo inimigo, resultado da mera existência da única linha de defesa. Para salvar a humanidade, cria-se um monstro pior que qualquer outro. Não é exagero comparar isso com o horror moralizador da literatura vitoriana e do cinema de horror, onde as vítimas de alguma forma “fazem por merecer”.

 

tumblr_n97zw89TyU1tos1hro2_400Essas histórias refletem um tema comum em horror e ficção científica e que já se faz aparente naquela que é considerada a primeira história de FC: Frankenstein, de Mary Shelley. O temor de que estejamos lidando com forças além do nosso controle, que tenhamos criado (ou usando, em alguns casos)  algo que não possamos controlar, e que nossa obsessão, busca por poder ou clamor por salvação possa ser nossa perdição. É um temor não só comum, mas bem compreensível. Especialmente em obras que vem de um povo que testemunhou os horrores da era de maravilhas do átomo em primeira mão. O discurso dos limites da ciência e os perigos de forças fora do nosso controle é a base dos filmes de Kaiju, e que serviram de base para o gênero dos super robôs. Em Gojira (1954) a única salvação contra o monstro Godzilla é o Destruídor de Oxigênio, uma arma tão terrível que seu criador, Serizawa, se suicida para que a arma nunca mais seja usada, e que 40 anos mais tarde (em Godzilla versus Destoroyah, de 1995) se torna a origem de um monstro ainda mais terrível.

 

Essa temática tem seus equivalentes entre os super-heróis. É nela que se encaixa o horror pessoal do Hulk, cujo maior inimigo é ele mesmo. Idem para os temores de Tony Stark ao final do arco Guerra das Armaduras (1987-1988) de que sua própria criação o esteja dominando (assunto reaproveitado em várias outras tramas do herói). E não há exemplo cuja gênese esteja tão claramente nesse temor quanto o vilão Ultron, criado para salvar o mundo, e que vira uma das maiores ameaças já enfrentadas (e em múltiplas continuidades).

 

Tadao Nagahama criou com seu Voltes V outra vertente para os super robôs, bebendo das antigas “aventuras Ruritânias”. Ao invés de histórias reativas, onde os heróis reagem aos ataques dos vilões Essas aventuras envolvem heróis ativamente lutando contra um vilão ditatorial para reestabelecer a ordem legítima em um mundo corrompido. Mas essa vertente é uma discussão para outra hora.

*o título desse texto é uma piada com algumas postagens online usando robores como plural de Robô.

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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