Cortes na pele, feridas na alma

Por Rubens Herbst*

Depois do bullying, Vanessa Bencz faz novamente uso dos quadrinhos para discutir outro tema delicado: a automutilação na adolescência

Vanessa Bencz ainda carrega as marcas de uma pré-adolescência difícil. Elas estão visíveis no seu braço: os cortes feitos por ela mesma quando tinha 13 anos, uma reação extrema aos seguidos abusos emocionais na escola, às pressões e a timidez. Pois a escritora e jornalista joinvilense não apenas superou os traumas como os transformou em munição para sua obra literária. Mais do que isso, fez deles uma causa a ser discutida por toda a sociedade, especialmente entre os jovens, onde o bullying e a automutilação se propagam como fogo em mato seco e ainda carecem de discussão série e aprofundada.

O primeiro tema virou a história em quadrinhos Menina Distraída (2014), que multiplicou o número de palestras que Vanessa dava em escolas desde 2012 e fez dela uma espécie de autoridade nacional sobre o assunto, dando entrevistas na Globo, no canal GNT e na revista Carta Capital. Antes que o ano acabe, Vanessa espera ter feito a milésima palestra de sua carreira.

Agora, ela espera repetir o feito com Por Enquanto, seu quinto livro e a segunda HQ, produzida com a ajuda da ilustradora Yasmin Moraes. O lançamento está previsto para o dia 8 de dezembro. Bem-sucedido em sua campanha de financiamento coletivo, Por Enquanto desnuda o delicado tema da automutilação entre os adolescentes. Carregando no preto e branco e fazendo uso de um texto cru e objetivo, a história foca em Ana e os problemas que a levam a estabelecer sua relação com o canivete. Desta vez, a narrativa é interativa e permite aos leitores escolherem os caminhos da protagonista.

Confira a seguir uma entrevista exclusiva com a autora.

Com Por Enquanto, você sai um pouco do assunto bullying, mas continua no universo adolescente. Como o tema da automutilação chegou até você?

Vanessa Bencz – faz exatamente um ano que resolvi falar de automutilação, justamente por ouvir todos os dias histórias deste tipo. Resolvi escrever uma HQ sobre bullying também por ouvir sobre isso todos os dias, e por conta dessas histórias também estava ouvindo sobre automutilação, e é assustador. Em todas as palestras eu pergunto quem conhece pessoas que se cortam e geralmente 90% dos estudantes levantam a mão. É um problema muito grave e a gente não tá sabendo lidar, as escolas não encontram brecha pra falar sobre isso. A intenção é essa, agora temos uma história em quadrinhos pra falar sobre isso nas escolas. Enfim, a intenção é ficar bem chocante mesmo, as pessoas que leram tiveram um certo mal estar.

De certa forma, você já passou pelas experiências que a HQ retrata…

Vanessa – Sim, e acho que é por isso que tá com tanta emoção, por que eu vivi. Na época, quando aconteceu comigo, eu usei a lâmina de um apontador de lápis pra me cortar. Era muito tímida, fiz isso por desespero, porque sentia que ia explodir. O bullying começou com dez anos. Com 13 eu já era considerada a garota mais incompetente da escola. Foi a gota d’água pra mim. As coisas só foram mudar com 14 anos, quando meus pais me levaram numa psicóloga. |

Você espera que este tema venha a ser tão comentado quanto foi o bullying após o Menina Distraída?

Vanessa – Sim, eu quero que seja falado sobre isso. Tem muita gente que vem falar comigo e mostra as cicatrizes e nunca falou sobre isso antes. As pessoas nem sabiam que outras que faziam (os cortes). É preciso colocar um nome – na nossa época, o bullying não tinha nome, era zoeira, e a gente tinha que aceitar. Hoje a gente sabe que ninguém merece passar por isso. Destrói vidas, e a é mesma coisa com a automutilação, destrói vidas.

Pelo que você percebe, que motivos levam a automutilação?

Vanessa – Em primeiro lugar, cada um tem um motivo muito específico, por isso é tão delicado. A maioria faz isso porque está passando por muito sofrimento e é uma forma de legitimá-lo – agora é físico, agora eu posso chorar. Outros fazem por autopunição, outros pra chamar a atenção, e eu não acho que chamar a atenção não seja legítimo. Se quer chamar a atenção, vamos dar atenção. A maioria desses jovens não tem voz na escola, não é ouvido em casa, na rua, na sociedade. A gente não tá se ouvindo.

Onde você acha que termina a zoeira adolescente e começa o bullying?

Vanessa – Quando tem uma pessoa que tá ofendida. Tudo bem que o bullying se trata de um ato repetitivo, que vai desgastando a  vítima com apelido, xingamento, agressão física, fofoca, ameaça. Virou bullying quando tem uma pessoa que tá triste e tá mudando a sua rotina por conta disso.

Por quê uma HQ?

Vanessa – Porque deu um resultado muito bom com o Menina Distraída. Senti que é um canal excelente para os jovens. Eu atingi meu público-alvo de forma muito certeira. Eles vieram até mim de forma muito transparente, então quero continuar com o veículo dos quadrinhos porque é uma linguagem muito fácil e clara para os jovens.

Imagino que a participação no programa da Fátima Bernardes deve ter ajudado bastante…

Vanessa – Tenho que admitir que foi um divisor de águas quando me chamaram pra dar entrevista. O programa dela tem muita audiência, comecei a palestrar no Brasil inteiro depois disso. Queira ou não, faz diferença no meu currículo.

Principalmente pessoas mais velhas dizem que há “mimimi” demais, que no tempo delas isso também acontecia e nem por isso ficavam reclamando…

Vanessa – Eu ouço isso o tempo todo. Obviamente que quem fala é um professor mais velho ou da geração dos meus pais, então, eu sinto muito por essa pessoa. Tudo bem, sofreu bullying, pegou apelido e não morreu, parabéns, mas tem gente que morre, que se automutila, que tem a vida destruída. É muita falta de sensibilidade julgar o outro pela sua própria experiência. Pra muita gente não é mimimi. Falta respeito, falta a gente olhar para o outro e dizer “ele tem uma história, é uma pessoa tímida que não sabe se defender”. Eu mesma, lá atrás, não sabia me defender. As pessoas dizem que a gente tem que aprender a se defender, mas eu acho que devemos ensinar o agressor a ser uma pessoa da paz, a não colocar apelidos, porque senão ela vai levar isso pra vida e se tornar um adulto que também coloca apelidos e daqui a pouco está respondendo por danos morais. Então, antes da gente falar da vítima, temos que falar do agressor. Por que ele está fazendo isso? O agressor, na minha opinião, já foi vítima antes, então é um ciclo de gente se machucando.

Pelo que você percebe, a conscientização a respeito do bullying melhorou?

Vanessa – Não melhorou. Essas minhas palestras são uma tentativa pequena, porque eu não consigo ficar parada. Mesmo porque tem escola que tá abrindo portas, então estou entrando pra falar. Se numa palestra eu conseguir atingir uma pessoa, pra mim tá ótimo. Mas não acho que melhorou. Ganhamos uma lei que obriga as escolas e clubes a ter ações a respeito de bullying, mas não mudou nada. Muitas escolas ainda têm resistência que eu entre pra falar sobre isso. Geralmente as escolas me dizem pra eu não falar sobre suicídio, nem automutilação e nem homossexualidade, então eu digo que não vai ter palestra. A gente tem que falar sobre, é a vida real. Me sinto responsável pra falar sobre isso, eu tenho bagagem, eu estudei pra isso.

O caso de Goiânia, em outubro, chamou mais atenção para o seu trabalho?

Vanessa – Chamou. No começo do ano, o seriado 13 Reasons Why deu muita evidência pro meu trabalho, inclusive eu considero que foi por conta disso que a gente conseguiu fazer o financiamento coletivo para o Por Enquanto. Eu odeio admitir, mas essa tragédia de Goiânia deixou ainda mais em evidência o meu trabalho, as pessoas estão me ouvindo mais. Inclusive escolas de Goiânia me chamaram pra palestrar.

Casos como esse tendem a acontecer com mais frequência?

Vanessa – Sim. Acho que nos EUA é mais comum – claro, é outro mundo, eles têm outra política de porte de arma -, mas acho que é uma tendência, e estou com muito medo. Tiveram estudantes que chegaram pra mim e disseram: “Estou com vontade explodir a escola. Já pensei em comprar uma bomba”. Infelizmente, é uma tendência e temos que encarar essa realidade, fazer alguma coisa.

 

 

 

* Rubens Herbst é jornalista e por 24 anos trabalhou no jornal A Notícia, onde comandou a coluna cultural Orelhada por quase uma década. Também é co-apresentador do programa É Rock! na Rádio Udesc FM Joinville. Rubens agora também escreve  para o Coletivo Metranca.

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