Como marketing moldou a Marvel: Secret Wars

Os heróis de Guerras Secretas

O ano: 1984. Maio. Sob letras garrafais, em um evento bombástico e sem precedentes na indústria de quadrinhos, a Marvel Comics juntava seus maiores heróis em uma única trama de proporções cósmicas. Com roteiro de Jim Shooter e arte de Mike Zeck Bob Layton, a “casa das ideias” surpreendia o público americano com uma história incrível: uma entidade cósmica chamada  Beyonder havia abduzido os maiores heróis e vilões da Terra, forçando-os a lutar para o seu entretenimento em troca do maior prêmio de todos: a realização de um único desejo. Era dado início às Guerras Secretas.

Afetando todo universo Marvel…

Um dos primeiros “mega eventos” da indústria de quadrinhos, Guerras Secretas causou alterações em quase todos os personagens envolvidos: novos uniformes, novos poderes, novos apetrechos… Anos de histórias futuras foram pautados em elementos introduzidos em Guerras Secretas, com seu resultado mais famoso sendo o super-vilão, posterior anti-herói Venom – surgido do uniforme negro que o Homem-Aranha recebeu como parte do evento. Personagens novos foram introduzidos, equipes mudaram, vilões e heróis foram repensados, equipes e relacionamentos foram alterados – no caso mais chocante, Ben Grimm, o Coisa, saiu do Quarteto Fantástico para ficar no Mundo de Batalha e explorar a galáxia.

Subitamente, um traje. Anos depois, um personagem
Subitamente, um traje. Anos depois, um personagem

Dos eventos de Guerras Secretas nasceu o hiper-popular (e na minha opinião, canceroso) anti-herói Venom, a quase nunca lembrada Mulher-Aranha Julia Carpenter, as super-vilãs VolcanaTitania, e pela magia do Retcon, a espiã Skrull e futura esposa de Johnny StormLyja – que teria tomado o lugar de Alicia Masters, a namorada de Ben Grimm, enquanto os heróis estavam longe. O relacionamento dos X-Men Kitty Pryde e Piotr Rasputin foi desfeito como parte do evento (supostamente, devido a Shooter não aprovar o relacionamento entre um homem de pelo menos 19 anos com uma menina de 14 ou 15. E se foi por isso, dou meu total apoio a ele). Magneto foi tratado pela primeira vez como um herói (embora não fosse aceito pelo lado dos heróis).

Secret Wars II: WHAT?
Secret Wars II: WHAT?

Guerras Secretas teve uma continuação em 1986, Secret Wars II, trazendo Beyonder para a Terra em busca de iluminação, em uma trama confusa que envolvia quase todas as revistas da Marvel na época*, algum plano não muito claro do vilão Mephisto, Beyonder transformando um prédio em ouro, uma explicação sem pé-nem-cabeça para a presença de Victor von Doom no primeiro evento (quando ele deveria estar morto) e Beyonder apaixonado pela X-Man Dazzler. Ao fim do evento, Beyonder é revelado como um Cubo Cósmico evoluído – em uma história que saiu dois anos depois do imbróglio –  os Vingadores precisam lidar com a terra em perigo devido às ações impensadas do ser cósmico, e os leitores se perguntando o que foi aquilo.

Deadpool's_Secret_Secret_Wars_Vol_1_1

Fora dos quadrinhos, Secret Wars serviu de base para um longo arco de história no desenho do Homem-Aranha – e mais recentemente, o conceito e seu personagem central foram revisitados em uma história dos Iluminati (com uma nova visita do Beyonder – que revela que SECRET WARS II NUNCA ACONTECEU), em Marvel Adventures Spider-Man(como A Guerra Secreta do Homem Aranha) e de forma mais impactante, em Secret Wars, outro mega-evento de 2015 com basicamente a mesma premissa, só que em escala maior. E em Deadpool’s Secret Secret War, uma recontagem do primeiro evento do ponto de vista do irreverente mercenário.

…Para vender brinquedos

Mas não é de Guerras Secretas em si que quero falar: é de suas raízes. Muito se crítica hoje a influência que os filmes da Marvel tem sobre seus quadrinhos, assim como se crítica a lógica mercadológica que cerca séries como Star WarsTransformers e a mega-franquia japonesa Gundam. Não é segredo que o sucesso dos filmes tem impactado os quadrinhos – quer em mudanças para parecer mais com eles, como a introdução de um segundo Nick Fury, negro e calvo, em reposta ao sucesso de Samuel L. Jackson, quer em tentativas de se afastar radicalmente deles, como no apagamento do Quarteto Fantástico ou nas mudanças radicais de caracterização de Tony Stark Steve Rogers.

2316266-battlescars6thegroup019

A influência de outras mídias sobre os quadrinhos não é coisa nova. Ano após ano, década após década, fãs gostam de fingir que são os quadrinhos “de hoje” que se deixam influenciar por política e marketing, ignorando o caráter politiqueiro e mercadológico de suas obras amadas. E poucos “eventos” de quadrinhos servem como exemplo melhor do poder do marketing sobre os quadrinhos do que Guerras Secretas. Por que?

Porque Guerras Secretas, por todas as suas 12 edições, não passava de um longo comercial de brinquedos da Mattel, simples assim. No começo dos anos 80, a Mattel sustentava suas vendas para meninos em cima dos brinquedos do He-Man, que estavam perdendo mercado para a linha Super Powers, da Kenner**, baseada nos heróis da DC, e para os brinquedos da Hasbro, como G.I. Joe e Transformers. Interessada nos dólares dos brinquedos de Super-Heróis, possivelmente a próxima grande moda, a Mattel ofereceu produzir uma linha da Marvel – contanto que a editora produzisse um evento editorial que “chamasse atenção” para a nova linha.

Eu tenho quase certeza que esse helicóptero foi lançado aqui como parte de SOS Commandos.
Eu tenho quase certeza que esse helicóptero foi lançado aqui como parte de SOS Commandos.

Segundo Shooter, grande parte do evento – a começar pelo nome – se pautava em “sugestões” dos executivos da Mattel. Pesquisa de mercado indicava que crianças reagiam bem às palavras “Secret” e “Wars”, logo, Secret Wars. A armadura do Doutor Doom era “medieval demais”, então teve que ser redesenhada para ser “mais high-tech”. O Homem de Ferro precisava de uma armadura nova, porque grupos de teste queriam uma armadura nova. O Homem-Aranha precisava de uma roupa nova… para vender mais um boneco do Homem-Aranha. O evento precisava de veículos, armas e fortalezas, para vender os brinquedos. A pressão interminável da Mattel levou Shooter a assumir o roteiro pois “só ele conseguiria”.

secret-wars-toys-is-marvel-heading-towards-something-even-bigger-than-civil-war

E isso tudo para o evento ser completamente ignorado pela Mattel: lançada entre 1984 e 1985, a linha Secret Wars ignorava completamente os personagens envolvidos na trama, lançando em suas duas ondas “o que desse na telha” dos executivos da Mattel. A primeira onda era basicamente centrada no evento, com oito figuras: Homem de Ferro, Capitão América, Doutor Doom, Kang o Conquistador, Doutor Octopus, Magneto, Homem-Aranha e Wolverine. A onda seguinte, no entanto, contava com só dois bonecos do quadrinho: Barão Zemo e o traje preto do Homem-Aranha. Os outros três bonecos – Duende MacabroDemolidor Falcão – não estavam no evento. Além dos bonecos, foram lançados sete veículos e dois playsets. Várias das figuras canceladas, com a exceção do Hulk e do Senhor Fantástico, não tinham relação com o evento. E por algum motivo todos os bonecos vinham com um escudo holográfico revelando a identidade secreta do personagem.

E depois?

E aí está: Um dos primeiros mega-eventos dos quadrinhos – se não o primeiro, antecedendo o concorrente e vastamente superior Crise nas Infinitas Terras em quase um ano – veio como resultado de uma campanha publicitária mal pensada. Teve repercussões imensas em todo o universo Marvel (Até em revistas que já existiam como comerciais de brinquedos, como permitir que a Terra quase fosse tomada por Espectros em Rom, o Cavaleiro do Espaço), serviu de incubadora para um dos mais prolíficos personagens da editora, praticamente criou o conceito do mega-evento, e serviu como uma lição importante para o mercado de quadrinhos: não deixe o marketing ditar o rumo das revis…

Não, pera.

Não dá para fingir: Embora o experimento de Secret Wars tenha sido um fracasso como forma de Marketing, com a linha promovida fracassando espetacularmente, a indústria de quadrinhos não aprendeu nada com esse fracasso. Especialmente não a Marvel: os anos seguintes foram marcados por redesigns feitos para vender brinquedos (o mais notável sendo a “armadura modular” do Homem de Ferro, criada para o desenho animado e a linha de brinquedos do personagem e imposta aos quadrinhos), mandatos editoriais focados em gerar mais e mais personagens para vender brinquedos e tentativas desesperadas de seguir modas “radicais” para aumentar vendas.

United they Stand: uma série feita para vender brinquedos da lista D dos vingadores
United they Stand: uma série feita para vender brinquedos da lista D dos vingadores

Isso é particularmente notável com a abundância de linhas de brinquedos ligadas às duas editoras. Por um lado, a DC tende a focar demasiadamente no Batman pois ele é o que vende, gerando linhas com 9 Batmans para cada outro personagem. Do outro, a Marvel- especialmente nos anos de parceria com a Toy Biz (durante os quais argumentou com sucesso que “mutantes não eram humanos” para pagar menos impostos – e em seguida estimulou roteiristas a criar mais mutantes para fazer mais bonecos) tendia (ou ainda tende) a mudar os designs de seus personagens com imensa frequência para vender mais brinquedos. A malquista estética dos anos 90 de bolsos-bolsos-bandoleira-e-bolsos acompanhando armas imensas veio disso: das demandas da indústria de brinquedos. As armaduras impostas a vários personagens da Marvel? Brinquedos – que venderam mal, e em alguns casos foram cancelados. As duas armaduras do Azrael? To Sell Toys. Só não era tão evidente quanto em quadrinhos explicitamente publicitários porque havia uma ilusão de narrativa independente – e grande parte dos designs de brinquedos se restringisse aos brinquedos.

As armaduras de Tony Stark: no filme por motivos narrativos, ou publicitários?
As armaduras de Tony Stark: no filme por motivos narrativos, ou publicitários?

Do lado editorial, Secret Wars serviu como o estopim para um problema que só aumentou desde 1984: o uso de “eventos bombásticos” como forma de impulsionar vendas em queda, o que torna cada vez mais difícil encontrar uma revista em quadrinhos que não seja parte de algum grande evento, tie-in de algum grande evento ou repercussão de um grande evento. Novamente, o problema é mais perceptível na Marvel (que tem praticamente um destes por ano, com Secret Wars em 2015, Civil War II em 2016-2017 e agora Secret Empire, só nos últimos três anos), mas contamina o mercado como um todo: a IDW se encontra ocupada com Revolutionaries, a continuação de Revolution, que havia sido antecedida por Titans Return (que era para vender brinquedos), precedido por Combiner Wars (idem) e Dark Cybertron (não tanto, mas com mudanças de design impostas para… você sabe). A DC, por sua vez, tende mais a “reinvenções” do seu universo – com a atual Rebirth sendo mais ou menos bem sucedida.

Não aprendemos nada
Não aprendemos nada

Em qualquer caso, ainda é comum que design, narrativa e caracterização acabem sendo ditados por departamentos de marketing – seja da própria editora, seja de parceiros comerciais ou de movimentos sociais. As noticiais recentes sobre uma suposta “perda de vendas” da Marvel por causa de “inclusão excessiva”, por exemplo, tem grandes chances de resultarem em mudanças cataclismicas na editora – pois é o que as lojas de quadrinhos americanas querem, e o departamento de Marketing da Marvel não quer perder essas vendas. Mesmo que isso prejudique a narrativa – assim como aconteceu quando impuseram os heróis “EXTREMOS” dos anos 90. Ou quando todas as revistas tem que frear para o novo evento “bombástico”.

Nada mesmo
Nada mesmo

E em um caso de incompetência da Marvel sobre Secret Wars… Grande parte da editora e dos fãs parece ter se esquecido de que Tony Stark nunca participou da primeira Guerra Secreta: quem vestia a armadura na época era Jim Rhodes.

 

* Incluindo uma aparição muito breve da super-vilã Circuit Breaker, de Transformers, que… convence Beyonder a não tomar controle da mente de todos na terra, em uma aparição de três quadros feita por motivos legais, para garantir que a personagem pertencesse à Marvel)

** A linha Super Powers tem um elemento tocante: os designs dos bonecos foram encomendados a Jack Kirby para que ele pudesse receber royalties das vendas dos mesmos – uma das únicas ocasiões em que o “rei” recebeu royalties por seu trabalho.

Gostou do conteúdo?


Curta a nossa fanpage no Facebook:  
e siga-nos no Twitter:  

O Metranca agora está aceitando conteúdo enviado pelos leitores!
Confira em: http://coletivometranca.com.br/contribua-com-o-metranca/

Veja Também

Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*