Metal Hurlànt Chronicles
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Metal Hurlànt Chronicles: um olhar sobre a série

No longo cânone das antologias de ficção científica, poucas revistas tiveram um impacto tão grande quanto a francesa Metal Hurlánt (que deu origem à americana Heavy Metal). Dotada do erotismo (não poucas vezes sexista) dos quadrinhos europeus, tramas que dividem a genialidade de suas reviravoltas com Além da Imaginação e uma criatividade infindável, a revista contava com artistas como Moebius, Milo Manara, Alejandro Jodorowski e Frank Margerin. Mas não estou aqui para falar da revista (ao menos não desta vez). Não é de se surpreender que a revista tenha servido de base para uma série de TV. O que é de se surpreender é o quanto demorou. Estrelando no canal público France 4 em 2012, a minissérie Metal Hurlànt Chronicles, de Guillaume Labrano, levou às telas um total de 13 histórias da revista, entre 2012 e 2014. Para conectar e apresentar as tramas, a narração de Benóit Allemane contava uma história a mais: a do “último fragmento de um planeta vivo”, cruzando as estrelas em tristeza e […]

Vozes de uma Estrela Distante
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Vozes de uma estrela distante

A separação entre amantes causada pela guerra é um tema já velho. Os dilemas da distância, da incerteza e da perda já foram abordados centenas de vezes por autores, diretores, músicos e dramaturgos – e não poucos ao longo da história enfrentaram o sofrimento dos dias de espera por alguma notícia da pessoa amada. A ficção científica e a animação não são estranhas a esse tema. Mas e quando o front não fica a dias de distância, mas anos? Quando a linha de batalha não fica em outro país ou outro continente, mas em órbita de outra estrela? Pode um relacionamento sobreviver quando mensagens levam meses, depois anos para chegar? Makoto Shinkai se propôs a abordar esse dilema em seu primeiro filme comercial, Hoshi no Koe (Vozes de uma estrela distante) de 2003 (seus filmes anteriores, Ela e seu gato, de 1999 e Outros Mundos, de 1997, não foram distribuídos). Com apenas 24 minutos […]

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Baú de Brinquedos: Os Transformers

Algum tempo atrás, eu falei das sublinhas de Transformers que marcaram a segunda metade dos anos 80. Na ocasião, eu disse que mais adiante eu faria um texto sobre as raízes de Transformers e a linha original. E bem, chegou a hora. Hora de falar dos mais bem sucedidos dos robôs-que-viram-coisas dos anos 80. E esclarecer alguns mitos sobre a linha que parecem perdurar tempo demais.   Um erro comum quanto a Transformers é achar que a Hasbro importe os brinquedos do Japão, e que a linha seja só o lançamento ocidental de uma série Japonesa. Enquanto é verdade (como veremos abaixo) que os moldes originais de Transformers pertenciam a linhas pré-existentes, a Hasbro fez muito mais do que meramente colocar eles em uma caixa nova. Partindo de um punhado de coleções japonesas que não deram certo no ocidente, a Hasbro, em parceria com a Marvel, criou todo um corpo de ficção […]

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Capitão América, nazista secreto?

Que a indústria de quadrinhos seja cheia de reviravoltas sem noção, não é novidade. Mas este mês a Marvel conseguiu se superar: a edição #1 de Steve Rogers – Captain America fez um dos retcons mais “chocantes” e insultosos da história dos quadrinhos: O Capitão América original, Steve Rogers, se revela um agente da Hidra após matar o herói Jack Flag.   E antes que se descarte a cena de Rogers dizendo “Hail Hydra” como sendo parte de um plano para se infiltrar na organização, flashbacks ao longo da edição revelam que nos anos 20, quando Rogers era uma criança, sua mãe Sarah foi recrutada pela Hidra por uma misteriosa Srta. Sinclair, e que o futuro Capitão América foi doutrinado nos ideais do grupo nazista.   Segundo o editor Tom Breevort e o roteirista Nick Spencer, isso é pra valer: não é controle mental, memórias falsas, um clone ou o Capitão fingindo […]

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A insanidade bombada de He-man e os mestres do universo 

Os anos 80 foram uma fonte interminável de linhas de brinquedos absolutamente bizarras, e acompanhando essas linhas de brinquedos memoráveis, estavam desenhos igualmente estranhos. Mas nada é mais emblemático da relação promíscua de animação e brinquedos do que He-Man e os Mestres do Universo. Criada pela Mattel em 1982, a linha de brinquedos de He-Man e os Mestres do Universo surgiu como mais uma das tentativas da empresa de se recuperar de um dos seus maiores erros: ter recusado a proposta de George Lucas para produzirem os brinquedos de Star Wars. A ideia para o bárbaro bombadão foi de Roger Sweet. As três faces da loucura Sweet percebeu duas coisas essenciais: uma era que a linha tinha que ter identidade própria (e não repetir o erro da tentativa anterior da Mattel, Big Jim, e copiar a concorrência) e a outra é que ela teria que ser simples. Com essas coisas em mente, […]

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Godzilla – Um (não tão) Breve resumo do “Rei dos Monstros”

Ano passado, eu postei em meu blog duas listas sobre os fantásticos seres que habitam os filmes de monstros gigantes. No entanto, ao meu ver, dois míseros parágrafos em uma lista de outros 13 monstros não são o bastante para tratar de forma adequada de Godzilla o “Rei dos Monstros”. Ele merece mais do que isso.   Godzilla é um ícone do cinema japonês e uma das figuras mais memoráveis do cinema. Nascido dos horrores da era atômica, um pesadelo nuclear dado vida. Fruto do indiscutível mestre dos Kaiju, Ishiro Honda (que testemunhou um teste nuclear em 1954, enquanto concebia sua obra prima), o homem que deu personalidade aos monstros gigantes. Se restringir a uma notinha é um desrespeito. Este é um breve dossiê dos mais de 60 anos de carreira do Rei dos Monstros. Poucos personagens do Cinema se mantiveram relevantes e rentáveis por tanto tempo. O que escrevo aqui é […]

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Bowie, Mandela, e o radicalismo online

Entre 1974 e 1976, o músico, ator e compositor britânico David Bowie esteve em um lugar muito sombrio. Sob a sua última persona artística, o Duque Branco e Magro, Bowie viveu a base de uma dieta, em suas palavras, de pimenta, leite e cocaína. Personificando o pior da humanidade, Bowie e o Duque se converteram em uma coisa só. Essa fase foi marcada por um fascínio profundo pelo fascismo – culminando em uma entrevista vergonhosa para a Playboy, em que Bowie exaltou a necessidade de um regime nazi-fascista no Reino Unido, e chamou Hitler de “o primeiro rock star”. O artista nunca negou esse período de sua vida. Jamais fez segredo ou pouco caso de seu condenável passado nazista. Mas após sua morte neste domingo, essa fase de sua vida, uma nódoa da qual ele jamais escondeu seu remorso (e da qual pouco se lembrava, dada as quantias homéricas de drogas que […]

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Camaleão do rock, das artes e da vida – Adeus, Bowie

Perdemos um dos maiores músicos que o mundo já teve. Um dos artistas mais versáteis da história, e um dos maiores letristas que a humanidade já teve. Ator, compositor e cantor, a carreira de David Jones/David Bowie/Ziggy Stardust/Aladin Sane/The Thin White Duke permeu mais de meio século. Abordou, através de fantasia, ficção científica e a mais dura realidade os dramas da condição humana. Poucos músicos podem sonhar em ter um repertório tão versátil, que vá de tragédias como I’ve not been to Oxford Town e Life on Mars até delírios hippie como Memory of a Free Festival, passando por músicas apocalípticas como The Man who Sold the World e Cygnet Committee, e até uma balada folk como THe Laughing Gnome. Bowie se junta ao rol de lendas da música. Assim como seu estilo musical, suas posições oscilaram entre extremos. Já foi um idealista, já foi um fascista, e já foi indiferente aos […]

Capitão América - Sam Wilson
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Conservadores, entendam: o Capitão América não é um dos seus

Esta semana, a Mecca do conservadorismo americano se envolveu em uma polêmica fabricada. A Fox News deu um legítimo chilique com a trama de Captain America: Sam Wilson #1. O problema? O já-não-tão-novo Capitão América agir como… Capitão América. Explicando melhor: a revista, escrita por Nick Spencer mostra o herói cortando seus laços com o governo americano e com a S.H.I.E.L.D. para se focar nos problemas do povo. A decisão do ex-assistente social de lidar com questões políticas que afetam a população carente diretamente é recebida com gritos de “Capitão socialista” e “Não é o meu Capitão América”. Bem como fez a Fox News. Em sua primeira aventura, Sam lida com um problema muito real: a xenofobia enfrentada pelos imigrantes vindos do México. Problema representado pelo grupo extremista Filhos da Serpente, uma alegoria clara para a Ku Klux Klan, que estava matando quem tentava a travessia. A fúria e indignação dos conservadores […]

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A máscara de Tarn e a relação entre medo e radicalismo.

Um bocado de tempo atrás, eu escrevi dois textos sobre a caracterização dos líderes dos Autobots e dos Decepticons nos quadrinhos de Transformers da IDW e sua relação com questões de ideologia política. Agora volto a abordar o tema com um personagem menor: o misterioso líder da Divisão de Justiça Decepticon (DJD), Tarn. Se a carreira de Megatron serve como um exemplo de como a violência e a radicalização podem corromper um ideal político, e a vida de Optimus Prime demonstra o poder a a influência que representações idealizadas tem apesar da realidade do representarem, Tarn nos demonstra outra coisa. Uma coisa frequentemente ignorada ao se discutir o fanatismo de grupos terroristas, ideologias políticas e torcidas organizadas.   A capacidade do ódio de se auto policiar e de ignorar as objeções morais de si próprio.   Mencionado pela primeira vez em More than Meets the Eye #5 (“Como Ratchet conseguiu suas mãos […]

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Minorias nos Quadrinhos: O “outro” no mundo dos super heróis.

Um bocado de tempo atrás, eu escrevi sobre a atual Miss Marvel, a imigrante paquistanesa Kamala Khan, a primeira muçulmana a estrelar uma revista de super heróis nos EUA. Kamala se destaca entre os personagens de minorias por não ser tratada como um outro, com base no conceito explorado por Simone de Beauvoir. Resumindo de maneira simples o conceito (cuja compreensão é essencial para entender a representação de minorias em qualquer mídia), o outro é aquele que não é “um de nós”. Beauvoir reaproveitou o conceito psicológico e filosófico de “outro” e o aplicou aos estudos de gênero – e daí ele foi aplicado para outros estudos sociais. Em sua análise, a sociedade contemporânea presume o homem como a “norma”, e trata a minoria (no caso, a mulher) com base em sua diferença. “Nós” somos indivíduos, “eles” são “eles”. Enquanto a maioria é individualizada e tratada por suas especificidades, a minoria é […]

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Três “Badasses” que causam mais estrago do que bem

Via Pedro Henrique Leal – Publicado originalmente no blog Fortaleza da Nerditude Se tem uma coisa que faz muito sucesso em quadrinhos, e felizmente não tem um respaldo tão grande na vida real, são vigilantes durões e “sem piedade”. Enquanto no mundo das HQs a ação deles acaba com o crime, no mundo real vigilantismo tem consequências trágicas… Mas será que mesmo no mundo dos heróis de colante esses vigilantes fazem tanto bem assim? Para seu bel prazer, três caras “durões” que talvez devessem repensar como lidam com o crime. Antes que eu seja alvo de críticas dizendo os métodos deles são “a única solução” e a situação dentro das HQs assim o exige, permita me uma réplica prévia: esse artigo não trata de como os roteiristas tratam a situação, mas sim de como ela transcorreria se as consequências desses métodos fossem levadas a sério. E antes que venha a brigada do “bandido […]

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Mad Max: a estrada da desconstrução

O filme está quase saindo de cartaz, e finalmente estou lançando o artigo… Quando Mad Max: A Estrada da Fúria ainda estava para sair, houve um chororô de grupos machistas sobre o o filme de George Miller ser “propaganda feminista” e “um ataque aos homens”. Tendo visto o filme, tenho que dar razão ao chororô: para quem se apega veementemente ao ideal do “homem de verdade”, de fato o filme é um ataque – e isso não é um demérito. Mad Max, o filme original de 1979, junto com sua continuação de 1981, The Road Warrior, são praticamente o molde do gênero pós apocalíptico. Longe de serem a primeira obra do tipo (esse troféu vai para o livro The Last Man, da inglesa Mary Shelley, em 1826), Mad Max traz tudo aquilo que se pensa quando se fala em “pós apocalíptico” – incluindo a estranha associação do gênero com fantasias de poder […]

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Simon Pegg e o descaso com a Ficção Científica

O Ator e roteirista Simon Pegg, contratado para reescrever o roteiro do terceiro filme do Reboot de Star Trek, declarou nesta semana “renunciar a nerdice”. Em seu ver, a atenção dada para ficção científica tem “nos infantilizado”. Antes, diz Pegg, os “blockbusters” eram compostos por filmes “artísticos e amorais” como “Poderoso Chefão” e “Bonnie e Clyde”, enquanto hoje são tomados por filmes “vazios e infantis”. Onde antes se ia ao cinema para pensar, diz Pegg, agora é para “ver o hulk bater em um robô”. Simon Pegg claramente não entende Ficção científica, história do cinema, ou narratologia. Ele incorre no mesmo erro clássico: achar que ficção científica é desprovida de conteúdo e de debate sério, enquanto cai em outro erro, de considerar que antes da era dos Blockbusters o cinema era composto primariamente por filmes “artísticos e profundos”, ignorando completamente a era de produções vazias e filmes B da “era de ouro […]