Capitão América, nazista secreto?

A revelação mais chocante da década

Que a indústria de quadrinhos seja cheia de reviravoltas sem noção, não é novidade. Mas este mês a Marvel conseguiu se superar: a edição #1 de Steve Rogers – Captain America fez um dos retcons mais “chocantes” e insultosos da história dos quadrinhos: O Capitão América original, Steve Rogers, se revela um agente da Hidra após matar o herói Jack Flag.

 

Sarah Rogers, sendo recrutada pela Hidra
Sarah Rogers, sendo recrutada pela Hidra

E antes que se descarte a cena de Rogers dizendo “Hail Hydra” como sendo parte de um plano para se infiltrar na organização, flashbacks ao longo da edição revelam que nos anos 20, quando Rogers era uma criança, sua mãe Sarah foi recrutada pela Hidra por uma misteriosa Srta. Sinclair, e que o futuro Capitão América foi doutrinado nos ideais do grupo nazista.

 

Segundo o editor Tom Breevort e o roteirista Nick Spencer, isso é pra valer: não é controle mental, memórias falsas, um clone ou o Capitão fingindo ser da Hidra. Não: é uma mudança “que sacudirá o universo Marvel”, revelando que seu maior herói era um nazista o tempo todo, e que Steve é, sempre foi, e sempre será um agente da Hidra. O que é um monte de asneiras e eu vou explicar o porquê.

 

 

A criação e o desenvolvimento do Capitão América.

 

Socando Hitler na cara
Socando Hitler na cara

O absurdo de Nick Spencer já começa em um nível essencial. Criado em 1941 por Hymie “Joe” Simon e Jacob Kurtzberg (mais conhecido pelo nome artístico, Jack Kirby), o personagem que Spencer reinventou como um “nazista secreto” era uma resposta ao nazismo. O então novo herói representava tudo aquilo que o nazismo era contra: era um rapaz doente e frágil, asmático e com problemas cardíacos, filho de imigrantes, sensível e empático. Era tudo aquilo que uma pessoa deveria ser, e que o ideal ariano rejeitava, dentro de um corpo que era tudo aquilo que os nazistas desprezavam – e que através do soro do super soldado, era transformado no “übermensch” ariano, um Adônis de olhos azuis e cabelos loiros… que tratava de socar a cara de Hitler.

 

Como já expus em outro artigo, na ocasião da publicação, Kirby e Joe Simon foram ameaçados por simpatizantes do nazismo. Os EUA só entrariam na guerra ao fim do ano, após o ataque japonês à base naval de Pearl Harbor. Antes disso, havia um apoio considerável ao nazismo dentro dos EUA – e era este público que a dupla rejeitava, mas que Spencer faz com que Rogers seja parte. era um quadrinho intensamente político – com uma posição que a nova revista inverte.

 

Embora fosse um personagem “patriótico”, Rogers estava longe de ser uma figura nacionalista. Sua lealdade era para com os ideais da democracia americana, não para a bandeira ou a nação. O período do pós guerra viu uma curta fase fascista do personagem, sob autoria de Stanley Liberman (vulgo Stan Lee) e Joe Simon. Com o título “Capitão América: ESMAGADOR DE COMUNISTAS”, a série de apenas 10 edições repintou o personagem como um nacionalista combatendo uma onipresente “ameaça comunista”. Essa fase foi retirada de continuidade anos mais tarde, em 1964, quando a Marvel optou por reviver o personagem, antes das falecidas Timely e Atlas Comics. Como Steve teria sido congelado em maio de 1945, o “Capitão América” dos anos 50 era um impostor (o vilão William Burnside).

 

Pelos 52 anos de publicação desde que a Marvel ressuscitou o personagem, uma característica se manteve constante: Steve Rogers era uma pessoa boa, a ponto de ser a definição de virtude, caráter e moralidade. Enquanto seu substituto John Walker (criado nos anos 80 por Mark Gruenwald), era um exemplo de intolerância, nacionalismo e arrogância e de como seria um Capitão América desprovido de sua virtude, Rogers sempre se manteve fundamentalmente decente. Há uma ideia fixa entre alguns leitores de que Rogers seja um reflexo do seu tempo, um conservador das antigas, ideia que não tem respaldo nos quadrinhos. Pelo contrário, ele era um homem afrente de seu tempo, progressista até para os padrões de hoje. 

 

Discursando contra a homofobia
Discursando contra a homofobia

Ao longo dos anos, Rogers sempre se manteve do lado dos oprimidos, dos discriminados e dos sofredores. Combateu nacionalistas, racistas, militaristas, supremacistas brancos, fez discursos contra a homofobia, contra o racismo e contra a xenofobia, e acima de tudo sempre se posicionou contra o nazismo. Seus maiores inimigos sempre foram ligados ao nazismo, à extrema-direita e ao fascismo – os monstros que foi criado para combater, e que agora colocam ele como sendo parte.

 

A revelação de que ele é e sempre foi parte da Hidra, um grupo nazista (não importa o quanto alguns fãs tentem negar), vai contra tudo que ele sempre representou. O twist de Spencer é quase equivalente a fechar uma revista do Batman dizendo que foi Bruce Wayne que matou seus pais, ou que Peter Parker matou seu tio. É descartar tudo que o personagem representa “para causar o maior choque”, como admitiu Spencer. E é um insulto aos criadores, os leitores e a cada roteirista que trabalhou com o personagem ao longo dos anos**.

 

Digo quase equivalente, por que é pior: com esse retcon esdrúxulo, a Marvel transformou toda a mercadoria do personagem em propaganda para um nazista. 75 anos de publicação foram retroativamente transformados em 75 anos de apologia à um nazista. A criação de dois judeus foi reapropriada como um ícone nazista. Cada escudo, bonequinho, máscara e fantasia do Capitão América, uma mercadoria promovendo um nazista como herói. Breevort e Spencer claramente não pensaram nas consequências do que fizeram.

 

Retroativamente transformados em bonecos de nazistas - foto por John Woo
Retroativamente transformados em bonecos de nazistas – foto por John Woo

 

 

Steve Rogers jamais seria aceito como um “Capitão América Nazista”: para além de seu caráter

 

Mesmo ignorando as questões autorais que fazem com que a proposta de Spencer seja imensamente estúpida e um desrespeito aos autores que trabalharam nele, tem fatores diegéticos que tornam a trama ainda mais ridícula.

 

Propaganda contra irlandeses era comum na época.
Propaganda contra irlandeses era comum na época.

Não é crível que um grupo nazista como a Hidra “abrigasse” Steve e sua mãe. Menos ainda que dissessem que o jovem estivesse “destinado à grandeza”. Dado o perfil ideológico da Hidra, tal cenário é improvável, para não dizer impossível, por múltiplos motivos.

 

Steve Rogers era filho de imigrantes irlandeses***. Na década de 20, quando os flashbacks da edição se passam, estes eram uma das minorias étnicas e nacionais mais odiadas nos EUA. Para o americano médio (como os que parecem compor a base de recrutamento das células americanas da Hidra), Irlandeses eram à época como os refugiados haitianos são para os conservadores brasileiros, ou os refugiados sírios são para a direita europeia: “parasitas, vagabundos, criminosos e traidores da nação”. Dificilmente o tipo de gente que seria bem vinda em um comício ligado a nazistas.

 

Steve Rogers: longe do sonho eugenista
Steve Rogers: longe do sonho eugenista
Pra quem diz que a Hidra não é nazista...
Pra quem diz que a Hidra não é nazista…

As mesmas características que faziam dele uma resposta ao ideal eugenista nazista fariam ele ser rejeitado de imediato pela Hidra. Vejam bem: o nazismo, e a Hidra por extensão, era obcecado com eugenia. Para o ideário nazista, Rogers – o rapaz com problemas cardíacos, problemas de desenvolvimento, asma, diabetes, anemia, daltonismo, sinusite, raquitismo, entre outras doenças – era o exemplo perfeito do üntermensch, o subhumano, aquilo a ser exterminado.

 

A questão nacional também impediria Sarah (uma imigrante chegada à pouco tempo no país, segundo a linha do tempo sugerida por Spencer) de ser bem recebida pelo grupo nascente – embora muitos imigrantes tentassem “se provarem brancos” participando de linchamentos. Fortemente associada ao nacionalismo branco, é improvável que a Hidra, nos anos 20, seria caridosa e acolhedora para uma mulher irlandesa. Ou que veria com bons olhos uma mulher que trabalhava fora de casa.

 

Há também um último fator narrativo a ser levado em conta: a revelação do nazismo secreto de Rogers vai na contramão de inúmeras histórias da editora: Rogers ergueu Mjolnir múltiplas vezes, foi escolhido por sua virtude e moralidade em Infinity Crusade, foi consistentemente retratado como sendo desprovido de preconceitos e como um ideal de retidão…Fazer dele subitamente um nazista cria uma incongruência extrema com essas histórias. E com ele ter sido escolhido como cobaia por seu senso moral.

 

Tornando heróis maus: como fazer bem?

 

Não há como esconder que Spencer quer fazer de Rogers um vilão. O próprio autor admitiu isso em entrevista ao Daily Beast. A ideia é velha, já tendo sido feita em quadrinhos dezenas, se não centenas de vezes. Em grande parte, mal.

 

Emerald TwilightAlguns casos usam de eventos dramáticos para “corromper o herói”: Fãs da DC Comics devem lembrar de Crepúsculo Esmeralda, a trama que transformou o mais chato dos lanternas verdes, Hal Jordan, em um maníaco homicida. A trama tinha potencial: fazer com que Jordan se fartasse das leis que tinha que seguir após a destruição de Coast City e quebrasse os códigos da Corporação dos Lanternas Verdes. Mas foi tratada de forma mambembe por Ron Marz (na mancha obrigatória de sua passagem excelente por Lanterna Verde), que fez o que poderia ser um processo gradual culminando em vilania ser uma explosão súbita de maldade que resultou em Jordan matando seus amigos e virando um vilão caricato. A queda do Lanterna foi resultado de mandato editorial, e tinha como propósito primário tirar ele do caminho, matar os outros lanternas e abrir espaço para um personagem novo. Como tal, não tinha grandes chances de ser boa – e Marz não teve tempo de dar um bom tratamento ao roteiro graças as decisões do editor, Kevin Dooley.

 

O mesmo método foi utilizado pelo jogo e a série de quadrinhos Injustice, de forma mais gradual. Embora o início da escuridão (a morte do Coringa) do Super-Homem seja um evento emocional (a morte de Lois Lane e de seu filho ainda no útero, por suas próprias mãos, seguida pela destruição de Metrópolis) sua queda rumo ao totalitarismo e a megalomania é gradual. Longe de ser uma história bem escrita, mas Injustice trata desta questão melhor que a anterior, agindo dentro do personagem para mudar o personagem (ao invés de mudar o personagem para então agir dentro dele). E é mais forte por isso.

 

Outras optam por revelarem subitamente que seu herói era mal o tempo todo, mudando continuidade retroativamente, como a trama de Spencer fez. Ela não é a única história desse tipo no cânone da Marvel: em 1995, a saga Avengers: The Crossing fez a mesma coisa com o Homem de Ferro, revelando que Tony Stark sempre esteve a serviço do vilão Kang, O conquistador, contaminando toda a publicação anterior com essa mudança – resolvida via viagem no tempo, um Tony adolescente, e posteriormente apagada com Heróis Renascem.

The Crossing: já vimos isso antes
The Crossing: já vimos isso antes

 

Há também aquelas que convertem magicamente seus heróis em vilões. Um dos mega-eventos da Marvel dependeu desse recurso, desta vez usado de forma engenhosa: em Axis, a onda psíquica do Caveira Vermelha inverteu a personalidade de heróis e de vilões, transformando os heróis em canalhas (Sam Wilson, por exemplo, virou um fascista) e ironicamente fazendo o Caveira Vermelha ficar bom. O recurso do Caveira para isso dependeu de outra inversão mágica: a antiga saga Massacre, em que Charles Xavier vira um supervilão genocida como consequência de ter absorvido “a essência maligna” de Magneto.

 

Momentos vergonhosos, em todos os sentidos
Momentos vergonhosos, em todos os sentidos

E aí temos as mudanças cuja explicação na prática é “porque sim”, mesmo que haja uma explicação diegética. Casos como Cassandra Cain – cuja vilania inexplicada foi atribuída posteriormente a Deathstroke, ou quando Susan Storm virou Malícia (e voltou a ser boa via um tapaço), ou a conversão ao mal de Mary Marvel. Ou minha favorita: a confusa, mal organizada e mal pensada origem do vilão Monarca.

 

Tem como fazer isso bem, como dá pra ver. Mas infelizmente, a maioria das tentativas é ou manca, ou incompetente, ou simplesmente não fazem sentido. O caso do Capitão América, além de não fazer sentido, é obviamente uma tentativa de salvar as parcas vendas do personagem (cujos títulos giram em torno de 35 mil cópias vendidas) criando polêmica.

 

 

Promovendo um personagem em troca de outro?

 

Por si só, essa trama já é terrível: é incoerente, contradiz 75 anos de publicação, pisa em cima dos autores originais e transforma um personagem criado para combater o nazismo em um ícone nazista. Mas há uma possibilidade que deixa essa história ainda pior: que Spencer tenha feito isso para cimentar de vez Sam Wilson como o “verdadeiro” Capitão América e calar quem pediu pelo retorno de Rogers, ao tornar o personagem inutilizável.

 

Capitão América - Sam Wilson
Sam Wilson como Capitão América

Spencer é responsável pela outra série do Capitão América: Sam Wilson – Captain America, focada no antigo Falcão, que assumiu o escudo depois que Rogers foi envelhecido prematuramente e perdeu o soro do super-soldado ao fim da passagem de Rick Remender pelo título (porque quadrinhos são estranhos). Como de costume para personagens de legado na Marvel (e especialmente personagens de legado minoritários), parte do público teve uma resposta extremamente negativa à mudança – e queriam Steve de volta.

 

Ao transformar Rogers em um vilão nazista, a ideia de tirar o simpático, empático e heroico Wilson do papel para devolvê-lo a Rogers se torna inaceitável – especialmente se tratando de tirar um negro para dar o papel a um nazista. Caso esta seja a intenção de Spencer, o cinismo dele é redobrado: além de perverter a criação de duas lendas dos quadrinhos, Spencer teria o feito para defender a “sua” criação. Essa possibilidade é reforçada quando se leva em conta que Spencer já tentava desmontar a reputação de Rogers em Sam Wilson – Captain America, desde a primeira edição (onde insinua que Rogers nunca se meteu com política, entre outras violações do cânone).

 

 

 

* Se isso foi resultado de viagem no tempo que será desfeita mais tarde, não muda o fato que Spencer considerou uma boa ideia pegar o personagem criado como um ataque ao nazismo e fazer dele um nazista “pra chocar”. E Spencer tem feito questão de deixar claro que não, isso não é “coisa de um arco de história só”. E faz parecer ainda mais com um repeteco de The Crossing

 

** Até mesmo a Rick Remender, o homem que tornou o Capitão América irrelevante no mesmo ano que sua encarnação cinematográfica fez dele alguém relevante outra vez.

 

*** E quase certamente, católicos – em ponto algum do universo normal da Marvel a denominação religiosa de Rogers é mencionada, mas graças a Ultimates, parte da fanbase tem a ideia fixa de que ele seja um protestante fervoroso e conservador – mais uma coisa pela qual devo estar “grato” a Mark “não fiz a pesquisa” Millar.

 

Este artigo contou com a ajuda de Alexandre Soares.

 

 

 

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