Bunda

Sinto o vento no rosto, meus olhos cerrados, já não escuto mais nada…

Sai do meio da rua filha da puta!

Quê é isso mãe?

Vixe tem de tudo nesse mundo!

Deve sê de teatro, coisa pra televisão.

Alguém faz alguma coisa?

Tem um carro da polícia ali ôh… Chama ele!

Uma puta dor no dente aparece exatamente um dia depois de ir ao dentista e ele dizer que meus dentes são perfeitos, que eu não deveria me preocupar com o fato da pequena prótese ter caído, afinal era pelo lado de dentro, não era estético e tão pouco faria diferença.

Na verdade não faria diferença pra ele. Mas eu percebia muito bem a diferença milimétrica no meu dente.
A língua percorre de forma obsessiva o espaço existente.
Não sinto a superfície lisa do dente, meu problema é esse! Não posso viver passando a língua no dente que era liso e agora tem uma serra no lugar, um desnível.

Como dizer isso para ele sem mandá-lo a merda.

Em menos de cinco minutos haviam quatro aprendizes de dentista olhando minha boca, cada um com uma questão mais idiota que a outra. Então ele pega o espelho e diz para eu levar minha mandíbula para frente umas três vezes, questiona: Viram isso? Viram isso?

Que porra é essa? Viram o quê? (eu também queria ver). Então ele chegou a conclusão que  a causa da falha do meu dente era bruxismo. Todos concordaram, ele prontamente disse que faria uma placa para que eu usasse quando fosse dormir e problema resolvido.

Não, o problema não está resolvido, eu não tenho bruxismo. Tive que ouvir que eu não sabia, que eu nunca havia reparado, porém tinha bruxismo.

placa-bruxismo

Senhor eu levei um soco na cara por isso perdi pedaços do meu dente, eu não tenho bruxismo, apenas coloque uma massa nesse pedaço que caiu e tudo bem.

Eu não podia pensar, um calor invadiu meu corpo, quatro horas de espera para o atendimento, o silêncio já tomava conta da minha mente, depois de ouvir tanta merda desse dentista e mirar a cara de babaca dos alunos, responder relatórios ridículos, somente para colocar um puto pedaço de massa no meu dente, eu simplesmente levantei tirei o babador e fui embora daquele hospital universitário.

Lembro que pessoas gritaram meu nome, eu simplesmente andava na direção do elevador que fechei rapidamente na cara de um dos alunos.

Penso que essa puta dor seguida de pus é praga desses pseudos dentistas.

O clima aqui está ótimo, sempre tenho dor na coluna e me apavoro quando não sinto meus dedos dos pés.
Mas também odeio ar condicionado ou quando tenho a roupa manchada de suor.

Nunca me relacionei bem com extremos.

Talvez por isso eu tenha levado um soco na cara.

Ao menos com a dor no dente, não penso na amputação dos dedos, também não durmo, nada é perfeito!

Eu não tô legal, eu não tô legal… Me irrito com a voz das pessoas, os passos, as caras, com o som que a castanha produz quando mordida dentro da boca que não é minha, me irrita o ruído, me irrita imaginar o gosto, só imaginar.

Eu preciso de férias, não preciso, eu preciso de outra vida.

Preciso arrumar a calefação.

Eu não consigo parar de olhar para o peito e a bunda dessa mulher na minha frente na fila do mercado. Como ela pode dizer para a amiga que não é silicone?
Minhas mãos se movem sozinhas em direção a super bunda meus olhos fixos no peitão. Não parecem reais, simplesmente todos olham.

Se meu amigo gay estivesse aqui certamente pediria para apertar os peitos dela para sentir o silicone, ele sempre faz isso, as mulheres se sentem tranquilas com ele, as vezes penso que ele se aproveita disso, sei que ele já ficou com algumas mulheres. Ótima estratégia a dele.

A mulher passa todas as compras, eu vou seguindo colocando minhas compras no caixa.

Duas cervejas, pizza, lasanha de microondas, café,  leite,  queijo, papel higiênico.

Enquanto ela coloca as compras na sacola eu pago minha conta rapidamente, sim aperto a bunda dela, uma reação impulsiva e completamente idiota.

Saio correndo do mercado, literalmente.
Não pego o troco.

Tenho uma puta vontade de sumir, de estar em um lugar seguro.

Atravesso a rua , não atravesso, paro no meio, largo as compras no chão.
Aos poucos os sons vão desaparecendo,  nada de buzinas, nada de gritos, nenhum ruído.

Então eu estou na neve, olhando para o céu, fazendo o clichê anjo movendo os braços esticados para cima e para baixo.

Estou num lugar seguro, estou só,  estou com frio e feliz, estou dentro de mim, no esconderijo que elegi.

anjo de neve

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