Baú de Brinquedos: War Planets

Aviso: contém Spoilers

Nem todas as linhas de brinquedos dão certo: Acostumada a depender de produtos licenciados desde seu imenso sucesso com Godzilla em 1994, em 1996 a Trendmasters tentou entrar no mercado de brinquedos originais sem muito sucesso com uma das parcas linhas de seu tempo sem apoio de um desenho animado – ao menos de início: War Planets.

 

Bebendo da febre espacial dos anos 90 e do sucesso de playsets como Might Max e Micromachines, a linha da Trendmasters se centrava no conflito interplanetário em um pequeno sistema estelar, onde os planetas Rocha, Fogo, Água, Gelo, Tek, Areia, Osso, Remora e Reptizar lutavam pelo domínio do sistema. Cada planeta tinha um estilo estético próprio, assim como seu arsenal particular para travar a interminável guerra entre os mundos. 

Planeta osso: visceral e orgânico
Planeta osso: visceral e orgânico

O conceito era o mesmo de toda linha centrada em playsets: cada planeta – assim como suas “Luas de batalha”, veículos e “super luas” – se desdobrava em uma estação de batalha, tripulada por vários soldadinhos não articulados, em uma versão “sci-fi” do velho Forte Apache. Dentro do pouco de ficção contido nas embalagens dos brinquedos, se descrevia um sistema estelar em guerra permanente, onde cada planeta estava na mira dos outros por seus recursos, sempre desenvolvendo armas mais e mais fortes para superar a ameaça inimiga.

O devorador de mundos, em forma de plástico
O devorador de mundos, em forma de plástico

Em 1997,, no segundo ano da linha, esse corpo superficial de ficção foi alterado com o lançamento do maior produto da linha, Beast Planet (ou Planeta das Sombras, como foi traduzido). Tentando aproveitar do sucesso do relançamento de Star Wars, War Planets ganhava seu shout out para a estrela da morte (o que é engraçado, dado que as “luas de batalha” já eram Estrelas da Morte): um planeta gigantesco e negro com a capacidade de engolir planetas inteiros. Com seu lançamento, a narrativa mudava: agora o sistema se encontrava em uma aliança incerta contra o astro descomunal e seu agente avançado, o planeta Remora. Porém, a linha continuava penando nas vendas.

Planeta Tek: robôs e mais robôs
Planeta Tek: robôs e mais robôs

Como já deve ter ficado bem claro a essa altura, durante os anos 80 e 90 era improvável que uma linha de brinquedos saísse sem ser acompanhada por um desenho animado. E em 1998, com a linha demonstrando seu fracasso em se sustentar sem um corpo ficcional que a promovesse, a Trendmasters buscou ajuda de peso: O estúdio canadense Mainframe, responsável por sucessos como Beast Wars e Reboot – a primeira série animada totalmentem em computação gráfica.

 

O Desenho

 

Exibido entre 1998 e 1999, a série animada – Shadow Raiders, para aproximar o foco mais dos personagens do que dos planetas em si – aproveitava a premissa da linha nos termos mais básicos; para facilitar a produção e tornar a narrativa mais coesa, o sistema foi reduzido a quatro planetas (Rocha, Fogo, Gelo e Osso). Já o planeta Remora foi reescrito como um planeta morto usado de fortaleza pelas tropas do planeta das Sombras. Enquanto isso, o planeta Tek foi consumido logo na introdução do primeiro episódio, com a nada sutil legenda Planeta Tek – No dia do juízo final.

Nascida de uma linha de playsets desprovida de personagens, a série optava por uma narrativa humana e política sobre uma guerra interminável interrompida por um inimigo implacável – no qual nenhum dos líderes dos quatro mundos em guerra acreditava. Seu protagonista, Graveheart (“Eu sou apenas um mineiro”), era um veterano de guerra traumatizado, temeroso de assumir uma posição de liderança por conta de seus fracassos passados. E o acaso o força a assumir a responsabilidade de unir os quatro mundos quando resgata Tekla, a última sobrevivente do planeta Tek, de um ataque das forças das sombras durante uma expedição clandestina no planeta Gelo. E é de Tekla que Gravehart e o monarca do planeta gelo recebem o alerta de sua destruição iminente.

graveheart: apenas um mineiro.
graveheart: apenas um mineiro.

Em sua primeira temporada, o foco era unificar o quatro mundos contra a ameaça iminente das sombras. Enquanto o Rei Cryos do planeta Gelo se demonstra razoável e compreensivo, é com o megalomaníaco Mantle, o jovem e inexperiente Pyrus – e seu assessor paranóico, o Grão Vizir –  e o covarde e traiçoeiro Femur que Graveheart e Cryos tem que lidar para formar a aliança, em uma trama que foca muito mais na política da guerra do que na ação em si. A temporada termina com a destruição da fortaleza das Sombras em Remora e a emergência do gigantesco planeta das Sombras de dentro do sol, destruindo sem esforço uma das luas de batalha do outro lado do sistema.

Os líderes de uma aliança improvável
Os líderes de uma aliança improvável

A segunda temporada opta mais pela tensão: a ameaça presente é maior do que imaginavam e ataque após ataque contra o planeta fracassam miseravelmente. Ante a um inimigo invencível, a aliança não vê escolha senão fugir com ajuda das recém descobertas Máquinas do Mundo – motores gigantescos para propelir o planeta para longe do sistema. Os alertas falharam, a aliança não basta, e o inimigo não pode ser vencido. De drama político, a série da um salto para horror cósmico.

Sem medo de chocar a audiência, Guerreiros das Sombras não poupou golpes para demonstrar o quão invencível é o planeta das sombras, resistindo incólume ao ataque suicida do Grão Vizir, convertendo uma máquina do mundo defeituosa em uma arma contra o devorador de mundos, ao uso de um planeta inteiro como uma bomba e a todo o poder de fogo das luas de batalha. A série já se abria demonstrando uma coragem rara para seu tempo, explicitando o fim da vida no planeta Tek (ao invés de sugerir e depois revelar que “eles sobreviveram de alguma maneira” ou coisa parecida).

Os agentes da fera: Voyd, Blokk e Lamprey
Os agentes da fera: Voyd, Blokk e Lamprey

Ao fim, a série se encerra não com uma gloriosa vitória contra o Planeta das Sombras, mas uma jogada desesperada que só lançou o problema para a mão de outros: teleportar o Planeta Prisão junto com seu devorador para sabe-se lá onde, encerrando a série com uma reprise da primeira tomada da série, substituindo o planeta Tek pelo planeta Reptizar.

Tekla: a última sobrevivente de um mundo consumido
Tekla: a última sobrevivente de um mundo consumido

Com roteiros de nomes como Dan Didio, Marv Wolfman, Len Wein e Gillian Horvath, Shadow Raiders contou com apenas 26 episódios – pouco para uma série de animação do seu tempo. Porém esses 26 episódios se mantiveram focados em uma narrativa coesa e forte, sem perder tempo com episódios “enchendo linguiça”. Uma terceira temporada foi planejada, mas não chegou a ser produzida devido às vendas dos brinquedos.

 

Enquanto a média das séries da Mainframe não envelheceu bem com o tempo – devido a questões técnicas – Shadow Raiders se encontra naquele ponto do desenvolvimento tecnológico em que a animação já se torna capaz de resistir à passagem do tempo. Os designs de personagem de Brendan McCarthy, de Reboot, ajudam: ciente das limitações da tecnologia, McCarthy fez designs que condiziam com a tecnologia da época e que expressavam bem cada planeta – embora ignorasse os designs dos brinquedos.

 

A segunda linha de Brinquedos

 

Bonecos de luxo da linha do desenho
Bonecos de luxo da linha do desenho

O desenho foi um relativo sucesso e serviu de base para mais uma linha, levando o nome da série animada. Lançada em 1998, a linha paralela contava com figuras articuladas dos personagens de destaque no desenho. Contava com figuras grandes juntas nos ombros, quadris, joelhos, pescoço e cotovelos e figuras menores com menos pontos de articulação e mais acessórios. Além de veículos e figuras “de luxo” com efeitos de luz e som”. A linha Shadow Raiders foi comercializada até 1999, quando foi cancelada sem aviso. As vendas da “nova” linha superaram as da original, mesmo com minifiguras novas representando alguns personagens do desenho.

Um dos bonecos menores: Rei Kryos.
Um dos bonecos menores: Rei Kryos.

A linha  também contou com um jogo de estratégia em tempo real, War Planets: Age of Chaos, de 1997, antes do lançamento do desenho. O jogo contava com quatro facções – Osso, Rocha, Gelo e Besta – e foi desenvolvido pela própria Trendmasters em parceria com a RAD Game Tools Inc. Lançado para MS-DOS, o jogo recebeu críticas negativas por sua jogabilidade truncada: não era possível selecionar múltiplas unidades de uma vez e o jogo não contava com movimentação da “câmera”, optando por dividir o mapa em setores fixos.

 

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A Trendmasters foi adquirida pela Jakks Pacific em 2002, o que torna um revival de War Planets ou de Shadow Raiders altamente improvável, dado o foco da empresa em figuras “jumbo”. Pelo mesmo motivo, é improvável que a série volte a ser distribuída. Ela foi lançada em DVD em 2000, sem relançamentos ou uma versão em bluray. Uma pena, pois ainda se mantém uma das mais ousadas séries baseadas em brinquedos nos anos 90.

 

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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