Baú de Brinquedos: Transformers Geração 2

Poster da primeira edição da revista da Fleetway no Reino Unido. Autor desconhecido, possivelmente Robin Smith.

O ano era 1993. Após sucessivas reinvenções e inúmeras sublinhas, a antes imponente linha Transformers se via reduzida ao mercado Europeu. Nos EUA, os robôs cybertronianos perdeiam desde 1988 uma longa batalha contra a Tartaruga-mania. No Japão, a Takara os abandonava em nome de uma franquia nova, Yuusha. Em uma tentativa desesperada de salvar a franquia, a Hasbro fazia o primeiro “reboot” de Transformers: Generation 2. Foi nessa situação que a linha começou a se reinventar e se adequar aos tempos… ou ao menos que ficaram EXTREEEEEEEEEEMOSSSS.

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Basicamente, isso

Embora retornasse às origens e se propusesse a recomeçar a história do zero, G2 era o mais claro rehash de Geração 1: Autobots e Decepticons (agora com insígnias novas) levavam sua guerra do distante planeta cybertron para o meio-oeste americano no ano 1984 1993. Na liderança dos Autobots estava o caminhão Optimus Prime (literalmente a mesma figura de 1984, só com mais armas e uma caixa de som), enquanto no comando dos Decepticons estava a arma O tanque Megatron (uma das primeiras figuras novas da linha e uma mudança de alt-mode que fez taaaaanto sentido).

Megatron: de pistola a tanque.
Megatron: de pistola a tanque.

No começo, a “nova” franquia era pouco mais que um repeteco do sucesso dos anos 80. Apesar dos avanços na engenharia de brinquedos entre 1984 e 1992, muitas das figuras do primeiro ano de g2 eram bonecos dos dois primeiros anos de transformers, com novos esquemas de cor (berrantes e remetendo à Euro-g1, que teve várias figuras relançadas como parte de G2) e acessórios extras – caixas de som e lançadores de mísseis, reaproveitados da também decadente linha G.I. Joe. E junto com isso estavam alguns dos mais acidentalmente comicos comerciais da história da franquia, como o que segue: 

Eu não sei o que é um Dudicus, só que Onslaugth é um… Mas como todas as partes de Transformers, há muito em G2 que é digno de nota – seja por quanto que foi feito, tal qual a tentativa de repopularizar os quadrinhos ante a onda de titúlos “radicais” nos anos 90 ou os avanços de engenharia – muitas vezes esquecidos – feitos durante os quatro anos de g2, ou pelo quão pouco foi feito, como na série animada de geração 2, um dos pontos mais preguiçosos da franquia.

 

Nos Quadrinhos, armas, queixos e baba. Mas primariamente, armas

 

Comecemos pelo ponto mais notório e mais infame, as duas séries de quadrinhos de Geração 2, em particular a publicada pela Marvel com roteiros de Simon Furman e arte de Derek Yanniger. Sob a chamada de “Não é o Autobot do seu Pai” (seria estranho se fosse, dado que o quadrinho começou a ser publicado meros nove anos após o início da franquia), a série buscava cumprir uma tarefa árdua: adequar os Transformers ao padrão dos quadrinhos de heróis dos anos 90, com seus anti-heróis parrudos e extreeeeemooooos.

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O resultado deixou muito a desejar. Repleta de cenas de ação, armas gigantes – para o padrão da franquia! – escolhas de design incompreensíveis (como as bandoleiras sem fim de Sideswipe, as “veias” saltadas do pescoço de Optimus ou a particularmente notavel combinação de queixos imensos e salivação excessiva) e uma narrativa incoerente, G2 era um novo ponto baixo para a franquia, que já tinha contado histórias com a vez em que Optimus Prime se matou por causa de um videogame.

Isso aconteceu. E é só isso que eu falarei a respeito.
Isso aconteceu. E é só isso que eu falarei a respeito.

Furman afirma que a ideia da série era se desprender do passado e criar uma narrativa que não dependesse de conhecimento prévio. Tarefa na qual fracassa logo na primeira edição, onde além de citar todos os vilões da série anterior, nos abre a história em uma cena que consegue dar a ilusão de que os Autobots são os vilões, sem que seja essa a intenção. A arte angular e desproporcional de Yanniger (que seria adequada para uma paródia desse tipo de quadrinho) não contribui para a qualidade geral do quadrinho – e já começa a incomodar pela capa da primeira edição: Optimus Prime com balas cravadas na cabeça e uma arma fumegante.

Jhiaxus em seu trono. "Nos cancelem".
Jhiaxus em seu trono. “Nos cancelem”.

No lugar da guerra entre os Autobots e Decepticons, há muito acabada, temos agora o embate entre os Autobots e o Império Cybertroniano, antigos transformers que deixaram a guerra de lado e colonizaram todo o espaço. Liderando o Império está o tirano Jhiaxus, obcecado com a eliminação das “formas de vida inferiores”. Enquanto isso, na terra, Megatron é reconstruído pelo grupo terrorista Cobra, em um Crossover com o moribundo título de G.I. Joe, que servia de “introdução” para G2…

Sideswipe mudou muito desde que entrou para os fuzileiros espaciais...
Sideswipe mudou muito desde que entrou para os fuzileiros espaciais…

Furman não tinha muita esperança que a série pudesse vingar: o nome do vilão era um trocadilho com “Gee, Axe us” (Puxa, nos cancelem) em resposta às vendas esperadas pela Marvel. Sem esperança que a série fosse renovada, Furman encerrou a história em um cliffhanger: Optimus renascido após ser consumido pelo misterioso Enxame e Jhiaxus sendo nomeado Liege Centuro pelo demoníaco e misterioso Decepticon Liege Máximo.

"Não precisa conhecer nada", diz Furman
“Não precisa conhecer nada”, diz Furman

A outra série, publicada no Reino Unido pela Fleetway, também contava com roteiros de Furman – o mais prolífico dos roteiristas de Transformers – em duas histórias originais envolvendo Megatron querendo a Matriz para criar um exército de decepticons. Após sua terceira  e antepenúltima edição, no entanto, a revista da Fleetway se resumiu a republicar as histórias da Marvel.

 

Nas telas: animação reciclada

 

Enquanto a Marvel tentava fazer algo diferente (para Transformers) com os quadrinhos, encaixando-os no ethos da editora durante a primeira metade dos anos 90, a Sunbow assumia descaradamente o caráter comercial do desenho e pouco fez além de reciclar as duas primeiras temporadas de The Transformers.

 

Reunindo 52 episódios tirados quase todos das duas primeiras temporadas do desenho, Generation 2 não fazia o menor esforço em ter qualquer semblante de continuidade. A escolha dos episódios era pautada em “que bonecos estão no mercado”, obviamente contemplando apenas aqueles que eram relançamentos de bonecos de geração 1.

Para dar a ilusão de que a série era “nova” e “moderna”, algumas poucas coisas foram mudadas: a abertura foi trocada por uma sequência computadorizada envolvendo Optimus Prime e Ramjet, as velhas transições do logo dos autobots e decepticons deu lugar ao “Cybernet Space Cube”, uma geringonça em 3d com monitores e barulhinhos, e efeitos computadorizados foram sobrepostos à algumas cenas.

 

A reação do fandom, então não organizado, ao desenho na época é desconhecida. Hoje, porém, a série é vista como um dos mais claros exemplos de descaso com o material, e o cubo é pejorativamente usado como sinônimo de gimmicks intrusivos, baratos e inúteis.

 

Nas prateleiras, uma lamentavelmente ignorada era de inovações.

 

Em seu primeiro ano, G2 foi um dos exemplos mor de como não fazer uma “nova” linha de brinquedos. Salvo por Megatron – agora um tanque verde-abacate – todos os bonecos lançados em 1993 e boa parte dos lançados em 1994 eram redecos de figuras do começo de G1 ou da chamada “Euro G1”. A única coisa realmente nova neles eram as armas de algumas figuras: os líderes de equipes de combiners e alguns dos bonecos maiores como Optimus Prime receberam imensos lançadores de mísseis retirados de bonecos de G.I. Joe enquanto outros bonecos ganharam canhões d’água.

Jazz: decoração nova, armas novas, brinquedo velho
Jazz: decoração nova, armas novas, brinquedo velho

O caráter reciclado do começo da linha faz com que G2 seja facilmente ignorada pelo fandom e seja, assim como o desenho, vista como um exemplo de preguiça e descaso por parte da Hasbro. Mas em 1994, o que se abriu como um reaproveitamento de brinquedos de dez anos antes dava lugar a primeira onda de bonecos realmente inovadores que Transformers via desde 1984.

Laserrods: enfim posáveis. Electro é também uma infame vítima de seu material, mas isso é outra história.
Laserrods: enfim posáveis. Electro é também uma infame vítima de seu material, mas isso é outra história.

Até então, a engenharia dos bonecos em si havia mudado pouco. Articulação se resumia ao essencial para a transformação, bonecos giravam em torno de um gimmick ou dois e a ideia de um transformer “posável” era um sonho distante. Por sugestão do designer Takao Ejima, uma das sublinhas do ano – os Laser Rods, um quarteto de “hot rods” com motores que se iluminavam e espadas – contava com uma das mais simples e mais importantes alterações no padrão de construção de Transformers: ball-joints em todos os pontos essenciais, permitindo poses dinâmicas ao invés do velho “levanta e abaixa o braço”, padrão que também era usado nos dois bonecos da linha “heroes”: Optimus Prime e Megatron, e em uma parte do duo Dreadwing e Smokescreen.

Dreadwing e Smokescreen: até hoje impressionam, com todo o poder de 14 misseis.
Dreadwing e Smokescreen: até hoje impressionam, com todo o poder de 14 misseis.

O ano seguinte, os moldes reciclados deram lugar a um total de VINTE E CINCO moldes novos (além de outros 13 que não vieram a ser lançados). Esses moldes se dividiam em quatro grandes categorias. Primeiro havia os “go-bots”, figuras do tamanho de um carrinho de Hot Wheels com articulação simples, que deveriam ter recebido uma pista de corrida para aproveitar o design – mas a pista foi cancelada. Junto com eles estavam os Laser Cycles, uma versão motociclística dos Laser Rods. O duo – Road Rocket e Road Pig – seriam repintados como versões novas de Soundwave e Jazz. A terceira classe de boneco de 1995 eram os Auto rollers, figuras de articulação simples que se transformavam automaticamente ao serem roladas para frente ou para trás. Assim como ocorreu com os Laser Rods, boa parte da linha foi cancelada, sobrando apenas os Decepticons Dirtbag (Caminhão de Lixo/Entulho) e Roadblock (Escavadeira). Embora fossem figuras voltadas para gimmicks e fossem “tijolos” para seu tempo, o duo contava com nove pontos de articulação – quatro em cada braço.

Space Case, um dos Cyberjets: prelúdio do que estava por vir
Space Case, um dos Cyberjets: prelúdio do que estava por vir

Mas a mais importante dessas categorias eram os Cyberjets. Munidos de lançadores por pressão, os seis jatos (Hooligan, Skyjack e Space Case para os cons, Jetfire, Strafe e Air Raid para os ‘bots) davam continuidade ao uso de ball joints pelos Laser Rods e demonstravam o começo da engenharia que se tornaria padrão dali para frente. Não mais estavam os Transformers limitados às articulações cruciais para sua transformação: a era da posabilidade havia chego.

G2 Go-bots: carrinhos transformáveis.
G2 Go-bots: carrinhos transformáveis.

Uma última figura marcou a era G2, lembrada por fãs e por muito tempo tida como a melhor versão do personagem. Acompanhando os Laser Rods e os Laser Cycles, Laser Optimus Prime trazia a segunda versão “nova” do lider dos autobots. Agora um caminhão de capô longo (como viria a ser nos filmes), o novo prime trazia um nível sem precedentes de articulação, superando até os G.I. Joes – e como seu boneco de G1, trazia consigo uma base móvel na forma de um trailer. Mas onde o original tinha uma base de reparos, agora era uma base cheia de armas – e para completar, Optimus ainda tinha sua própria espada, digna de um super robô.  

Laser Optimus: o graal de sua era
Laser Optimus: o graal de sua era

Apesar de todas essas inovações, G2 não teve sucesso em reaquecer as vendas de Transformers. Com a linha a beira do cancelamento e uma reestruturação geral da Hasbro que deixou todas as linhas “para meninos” nas mãos da subsidiária Kenner, uma reforma maior se demonstrava necessária. Os avanços de engenharia de G2 viriam a calhar, mas pesquisas de mercado demonstravam que o problema estava na raiz: muito do publico alvo já tinha aqueles brinquedos, por parte de primos e irmãos, mesmo que em versões diferentes – vender outro Optimus Prime que virava um caminhão para pais que já tinham comprado-o anos antes seria difícil. Transformers precisava mudar. E em 1996, sob a direção da Kenner, as formas de veículo iam embora junto com a animação tradicional. Os tempos eram outros. Havia chegado a guerra das bestas.

Ou a guerra dos Scott McNeills.
Ou a guerra dos Scott McNeills.


Enquanto isso, G2 teve algumas homenagens em linhas como Reveal the Shield e Combiner Wars, e o padrão de cor escandaloso que marcou G2 e o final de G1 virou uma piada interna entre o fandom.

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