Baú de Brinquedos: A oportunidade perdida de Exosquad

O ano é 2119. A Comunidade Humana se espalhou pelo sistema solar, colonizando os planetas de Marte e Venus. Longe dos planetas natais, orbitando o Cinturão de Asteróides e os planetas Exteriores, vastos clãs de piratas ameaçam a estabilidade do sistema. Das cinzas da guerra, outra ameaça surge. Criados como mão de obra barata e soldados descartáveis durante a expansão da esfera humana, uma nova raça se insurge: Os Neo-sapiens, dando início a uma segunda guerra entre os humanos e suas criações. Neste novo campo de batalha, a arma mais comum é o E-Frame, gigantescos exo-esqueletos blindados desenvolvidos a partir do maquinário usado na Terraformação. Estas são as histórias do Esquadrão Able durante a segunda Revolta Neosapien.  

O parágrafo acima resume mal e porcamente uma das mais interessantes obras da animação “publicitária” dos EUA: Exosquad, uma produção da Universal Cartoon Studios em parceria com a Playmates Toys. Em 1993, a indústria de animação americana começava a sentir o peso do tempo: a invasão dos desenhos japoneses iniciada na década anterior afetava o interesse do público, e obras como Batman: The Animated Series, de Bruce Timm, demonstravam a capacidade que os desenhos animados e sua audiência tinham para lidar com temas mais maduros.

O velho formato do “vilão da semana” com narrativas simples e falta de continuidade estava ruindo, algo que o então presidente da divisão de desenhos da Universal, Jeff Seagal, já vinha alertando há algum tempo. Seagal havia atuado como editor de roteiro em O Desafio dos Go-bots e estava familiarizado com o mercado de animação – e com o impacto nele causado pelos desenhos japoneses. Proposta originalmente em 1989 com o título de Exoforce, Exosquad era sua resposta à crise que via como sendo eminente.
Aprovada pela universal em 1993, a nova série de Seagal foi ao ar em 11 de setembro de 1993, recebida com elogios da crítica e curiosidade do público. Com apenas 13 episódios, sua primeira temporada bebia da ameaça percebida dos desenhos japoneses com elementos então raros para a animação americana. Sob a edição e o roteiro de Michael Edens, Exosquad focava não em “o bem contra o mal” em histórias episódicas, mas em um longo arco de história sobre preconceito, religião, guerra e tecnologia. Personagens morriam e vitórias estratégicas não eram uma questão simples de “derrotar os caras maus” – que nem sempre eram tão maus assim.
T.J. Marsh e seu E-Frame. Mais do que bem e mal.
Em 1994, sua segunda temporada, com mais 39 episódios, foi ao ar. As influências da animação japonesa eram óbvias e confessas: Will Meugniot, o produtor executivo da série, abertamente a comparou com o clássico Mobile Suit Gundam, afirmando que Exosquad era “o front europeu” para o front do pacífico de Gundam. Muito adiante do seu tempo, Exosquad chegou ao seu fim com uma sugestão de uma terceira temporada; Onde outras séries se contentariam com pintar todos os antagonistas em diversos sabores de mau e por um único “cara mau” entre os heróis, Exosquad contava com figuras execráveis em ambos os lados do conflito – e mesmo o monstruoso e egoísta Phaeton, o expy da série para Adolph Hitler, tem seus bons motivos para odiar a humanidade – em vista de quase um século de escravidão dos Neosapiens nas mãos de seus criadores.
Phaeton em seu estado decadente no segundo
ano da guerra. De tirano egoísta a enfermo
Ao invés de ter os pacíficos humanos sendo atacados por aliens ou robôs do mal, Exosquad tinha uma comunidade planetária corrupta e sitiada por seus ex-escravos e os rejeitos de sua suposta democracia. Ao mesmo tempo, os Neosapiens, que após a primeria insurgência haviam passado de escravos para cidadãos de terceira classe, estavam em grande parte envolvidos em uma campanha militar que visava a total extinção de seus criadores, mantendo alguns humanos como escravos apenas para terem os meios de criarem mais neosapiens. Não era o bem contra o mal, mas a imundice da guerra. E no meio deste cenário estavam as missões do Esquadrão Abel, liderado pelo Tenente J.T. Marsh, centro da maior parte – mas não de todos – os 52 episódidos da série.
Exosquad teve um sucesso moderado de audiência em seu tempo, fazendo mais sucesso com a crítica do que com o público em geral. Em 1993, a ideia de um desenho animado, nos EUA, abordando com seriedade questões políticas e sociais e as consequências da guerra nas vidas tanto dos civis quanto dos soldados era impensável – e compartilhar o espaço com o muito mais formuláico Monster Force não ajudava na visibilidade da série. Mas fez seu papel como um passo inicial para obras posteriores como Avatar: A Lenda de Aang, Transformers Prime e, mais perto de seu tempo, Shadow Raiders. Questões legais dificultam o relançamento de Exosquad – um tesouro perdido dos anos 90.
Os Brinquedos
Como estamos falando de Baú de Brinquedos, há de se falar da outra parte de Exosquad: os brinquedos. Lançada entre 1993 e 1995 pela Playmates Toys, a linha de Exosquad se dividia entre uma linha de figuras de ação e uma pequena linha de Playsets, composta por duas bases, uma humana, vindo com uma miniatura de J.T. Marsh e seu E-Frame, outra Neosapien, incluindo Phaeton e seu E-Frame na base de Olympus Mons, e uma miniatura da espaçonave Resolute com miniaturas de E-Frames.
A linha de figuras era mais complexa, dividida entre E-Frames de Uso Geral (16 figuras), E-Frames de Ataque Leve (4 figuras), E-Caças Espaciais (2 figuras), E-Frames de missão especial (4 figuras), Cyber-Vision E-Frames (4 figuras), seis figuras “solo” – os Jumptroopers e dois “Neos” -e dois lançamentos limitados – o E-Frame Transformável de T.J. Marsh e o E-Frame de ataque leve de Marsala. As caixas contavam com explicações detalhadas sobre as armas e os detalhes técnicos de cada veículo, como model Kits de Zoids e outras linhas japonesas.
Techspechs – coisa que só model kits e G.I. Joe faziam.
Cada conjunto vinha com uma figura do piloto, com articulação similar a de um boneco dos Comandos em Ação – embora a figura fosse um pouco menor que um Joe – alguns acessórios para o piloto, uma cartela de adesivos (incluindo “dano de batalha” opcional) e o E-Frame. Como as figuras mais numerosas da linha, os E-Frames de uso geral era os “veículos” mais simples: estruturas humanóides, onde o piloto se encaixava no tronco (com ajuda de uma presilha e um cabo que se ligava a nuca), recheadas de armas. A maioria contava com projetéis e armas movidas por molas. Em um ponto de preço separado, a versão especial do E-Frame de Marsh contava com a habilidade de meio que virar uma moto.
Rita Torres em sua E-Frame de Sargento de campo. Eu tinha isso.
Os E-Frames de ataque “Leve”, por sua vez, eram veículos maiores que faziam mais o tipo de Mecha “ocidental“, cujos pilotos se sentavam em suas “cabeças”. Além de serem muito maiores que seus primos de uso geral, estes contavam com efeitos de luz e som e espaço para mais personagens. O E-Frame exclusivo de Marsala trocava o efeito de luz e som do resto de sua categoria por um gimmick motorizado de caminhada.
Marsala e seu E-Frame de ataque “Leve”.
As quatro “E-Frames de missão espacial” eram um pouco maiores que as de uso geral, mas seu atrativo eram movimentos motorizados em suas ferramentas, trocando parte do arsenal da linha “normal” por serras, pinças e furadeiras rotatórias. Por sua vez, os E-Frames Cyber-Vision eram E-Frames de uso geral com um Viewfinder que podia ser usado para mirar seus lança-mísseis descomunais (gimmick comum na época).
Thrax e seu espaço-caça.
Já os E-Caças eram… caças espaciais, com um vasto arsenal para compensar sua falta de membros. A linha era fechada pelos quatro Jumptroopers, soldados que trocavam o E-Frame por peças de armadura e jet-packs, e os dois Neotroopers – o felino humanóide Neocat e o alado Neolord, com menos articulação que o resto da linha.
Coleen O’Reilly e sua armadura.
Além do play-pattern único e a atenção dada ao seu maquinário (sem, ao contrário de outras linhas, relaxar nos bonequinhos), a linha de Exosquad se destacava em outro sentido: o da representatividade. Em seus três anos e seis ondas de produtos, Exosquad contou com espantosas QUATRO personagens femininas (Rita Torres, Maggie Weston, Nara Burns e Colleen O’Reilly), nenhuma das quais era só “a menina”. Impressionante quando se lembra que hoje ainda temos uma média de meia personagem feminina por linha de brinquedos para meninos.
A série também contou com uma breve revista em quadrinhos pela Topps, um jogo para o Mega Drive, lançado em 1995, e um jogo de tabuleiro (sobre o qual não encontrei nada).  Apesar do mercado atual ser mais favorável à série, é improvável que venhamos a ver um revival de Exosquad. A primeira temporada chegou a ser lançada em DVD em 2009, mas não há notícias de um box da segunda – e o silêncio sobre isso por oito anos sugere que a Universal possa ter perdido os originais da série.

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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