Baú de Brinquedos: Machine Wars

Machine Wars: uma das demonstrações mais claras de que fãs não sabem o que querem

 

Muito, muito tempo atrás, eu falei de Generation 2, a primeira grande tentativa de reviver Transformers. Lançada entre 1992 e 1995, a sublinha foi marcada por inovações de engenharia, quadrinhos horríveis e animação reciclada. Como notado no texto, G2 fracassou em preservar a presença de mercado de Transformers. Com as vendas de suas linhas para meninos em queda, a Hasbro transferiu suas linhas masculinas para a subsidiária Kenner, que deu início a primeira grande reinvenção da linha: Beast Wars.

Ou a guerra dos Scott McNeills.
Ou Scott McNeil Wars


Mas não é de Beast Wars que estamos falando aqui. Lançada em 1996, a nova série de Transformers mudava tudo: Autobots e Decepticons davam lugar a Maximals e Predacons. Optimus Prime dava lugar a Optimus Primal enquanto Megatron era substituído por… outro Megatron, dublado pelo genial David Kaye. Hoje tida como uma das – se não A – melhores séries de Transformers e uma das linhas mais inovadoras da franquia, em 1996, a resposta foi muito diferente.

A imagem pode parecer piada, mas o autor dela tem um histórico de insultos e ameaças ante a mera menção de Beast Wars
A imagem pode parecer piada, mas o autor dela tem um histórico de insultos e ameaças ante a mera menção de Beast Wars

 

Para grande parte do fandom, Beast Wars era um ultraje que “estava arruinando Transformers para sempre”. Message Boards e mailing lists começava a organizar o fandom na internet e a Botcon dava seus primeiros passos em sua terceira edição. Aos gritos de “caminhão, não macaco”, fãs protestavam contra os “animais robôs”. Postagens indignadas reclamavam de Prime ser “um macaco idiota” e não um “caminhão”. Hoje, a pergunta é em geral usada para zombar de fãs que não aceitam mudança – embora alguns ainda guardem rancor de Beast Wars – e não consigam entender que Primal e Prime são personagens separados.

 

Ironicamente, anos mais tarde: Trukk and Munky
Ironicamente, anos mais tarde: Trukk and Munky

Eis que entra Anthony Gaud, um representante da Kenner. Diante da balbúrdia causada por Beast Wars, Gaud anunciou que a empresa lançaria no ano seguinte outra linha de Transformers, um revival de Geração 1, retomando personagens clássicos e os velhos modos veiculares, no que hoje é visto como uma tentativa frustrada de apaziguar os fãs. E em 1997, após muita antecipação e muita especulação, as prateleiras da KayBee Toys recebiam Machine Wars – a linha prometida por Gaud.

 

Repaints, moldes rejeitados e decepções – sem ficção nenhuma

 

Lançada exclusivamente na rede KayBee, Machine Wars não era o que os fãs mais puritanos esperavam. Composta por apenas 12 bonecos e 8 moldes, Machine Wars era um buffet limitado de moldes da “Euro G1” e dos então desconhecidos flipchangers – novos para os olhos do público, mas originalmente pensados para G2 antes do seu cancelamento.

Thunderclashimus Prime!
Thunderclashimus Prime!

Os moldes do final da G1 tiveram as molas de seus lançadores de mísseis e o gimmick do “mega-visor” dos dois moldes decepticons retirados. Esses quatro destoavam fortemente de seus companheiros menores. Bem articulados para a época, com ball-joints por todo o corpo, os flipchangers eram pouco maiores que os Legends de Generations e contavam com um dos mais funcionais esquemas de transformação automática, se desdobrando de robô em veículo em um passo – sem prejudicar nenhuma das formas.

Starscream, acredite se quiser
Starscream, acredite se quiser

Dos 12 bonecos, 10 afirmavam em suas caixas serem personagens clássicos em corpos novos: Prowl e Mirage, compartilhando o mesmo corpo de carro de fórmula 1; Optimus Prime, um redeco de Thunderclash que nem tentava parecer o líder dos Autobots; Starscream, um redeco do Predator Skyquake; Thundercracker e Skywarp, um Dassault Rafale – nenhum deles remetendo minimamente às cores originais; Soundwave, um redeco do Predator Stalker (o molde que mais fez sentido na linha, dado que Stalker já era meio-que-Soundwave-como-um-tanque); Sandstorm, partindo do Turbomaster Rotorstorm; O caminhão guincho Hoist, compartilhando o molde com o novato Hubcap; e Megatron, agora um F-22, forma que dividia com o novato Megaplex.

Megatron e Megaplex.
Megatron e Megaplex.

Tirando os vagos perfis de personagem nas embalagens, nenhum corpo de ficção acompanhou Machine Wars na época de seu lançamento. Nenhum textinho explicando a ficção na caixa, mini-comic, narrativa, nada: apenas alguns perfis vagos que podiam ou indicar que aqueles eram os mesmos personagens clássicos após Geração 2.

Soundwave: a única boa escolha da linha
Soundwave: a única boa escolha da linha

A falta de ficção combinada com a escolha de moldes levou a um proto-cenário (parcamente expandido por algumas ilustrações ao longo dos anos) com características peculiarres – como Megatron ser o menor dos Decepticons e ter um clone, ou Starscream ser o maior dos Decepticons. Pouca coisa indicava que aquelas figuras haviam sido pensadas para referenciar os personagens clássicos: excluindo Mirage, Hoist e Soundwave, ninguém parecia muito com sua versão anterior, com padrões de cor que seguiam desígnios desconhecidos.

Como todos sabem, Prowl é uma viatura
Como todos sabem, Prowl é uma viatura – uma dessas novas viaturas de fórmula 1

Machine Wars sumiu das prateleiras de forma tão súbita e despercebida quanto chegou – e ficou esquecida entre os recônditos da longa história da linha até 2012…

 

BotCon 2013 e a lembrança de Machine Wars

 

Já habituada a cavocar os pontos mais obscuros da linha para compor os sets de exclusivos da BotCon, a Convenção Oficial de Transformers, a Fun Publications causou furor em 2012 ao anunciar que o tema da convenção do ano seguinte seria Machine Wars, Machine Wars: Termination. Particularmente apropriado que uma linha que aparenta ter nascido de uma declaração apressada na BotCon fosse relembrada em uma Botcon.

Sandstorm, ao lado do molde que foi usado para ele e do seu "original".
Sandstorm, ao lado do molde que foi usado para ele e do seu “original”.

Para relembrar a linha de doze figuras, a convenção contou com dez figuras exclusivas de Machine Wars (e uma de Geração 2) e um quadrinho que finalmente oferecia um mínimo de ficção para esta fase obscura de Transformers. Por muito pouco, o “Machine Wars” da Botcon não era maior que o original.

Termination: a única ficção de Machine Wars
Termination: a única ficção de Machine Wars

Partindo de uma releitura do vilão de G2 no universo dos quadrinhos da FunPub, Jhiaxus, Termination estabelecia um novo conflito que forçava uma aliança tênue entre os Autobots e os Decepticons para enfrentar os exércitos de clones liderados por Megaplex. Escrito por Jesse Wittenrich e ilustrado por Josh Burcham e Jimbo Salgado, o quadrinho mostra uma Cybertron tomada por clones, um clima de paranoia constante e o despertar de um novo “Megatron” ser freado por seu criador. A trama havia sido prenunciada pelo arco de história A Flash Forward, na revista do fã-clube oficial de Transformers.

Obsidian: parte de Beast Machines.. Mas não de acordo com a FunPub
Obsidian: parte de Beast Machines.. Mas não de acordo com a FunPub

Embora ostensivamente se tratasse de um set de Machine Wars, três das figuras lançadas como sendo parte da celebração de Machine Wars – Strika, Blastcharge Strika Drone e Obsidian – eram personagens que tinham sua origem como parte de uma linha radicalmente diferente: Beast Machines. A décima primeira figura do Set era “Autobot Electrons”, um rebatizado Electro de G2, sem os problemas materiais de sua versão original.

Definitivamente, essas são as cores do Skywarp. Sim senhor.
Definitivamente, essas são as cores do Skywarp. Sim senhor.

Termination foi uma homenagem curiosa à Machine Wars, marcada por problemas de montagem em Electro e Hoist – os retools do Sergeant Kup de Generations com peças colocadas ao contrário que impedem sua transformação em robô – e escolhas estéticas… estranhas. A maior parte das figuras são moldes de Revenge of The Fallen e Dark of The Moon, figuras dos filmes com sua estética particular. Hoist, Electro, Strika e Blastcharge são bonecos de Generations, com uma estética que até combina com os bonecos usados; Megaplex, no entanto, é um redeco puro de uma figura de Transformers Prime, com um visual que não combina em nada com seus colegas.

Megaplex: um estranho no ninho
Megaplex: um estranho no ninho

Exigida pelos fãs em 1996, Machine Wars hoje é só uma nota de rodapé na história da franquia. Enquanto isso, a então rejeitada Beast Wars… fica para outro dia.

 

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Sobre Pedro Henrique Leal 66 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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