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Ida ao cinema, ou o que não me contaram sobre a ditadura

Vivo em Buenos Aires desde 2014, já ouvi muito sobre a ditadura (ou melhor, sobre as ditaduras da Argentina) e dia 25 de junho de 2017 conheci o conjunto de prédios ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada de Buenos Aires – Argentina), a ESMA foi muito mais que uma escola, durante a última ditadura militar (1976 – 1983), manteve clandestinamente cerca de 5.000 presos políticos. Foi um centro clandestino de detenção, tortura e extermínio. Paralelamente ao funcionamento da escola esses presos eram mantidos em um prédio chamado ¨Casa de oficiais¨. Em 2004 o estado Argentino recuperou o prédio, o lugar começou a ser chamado de EX ESMA e tem como objetivo exercitar a memoria para que tais atrocidades e crimes contra a humanidade não voltem a ocorrer. Existe uma serie de atividades nesses prédios como museus, escola de jornalismo, teatro, música, etc., porém muitas salas ainda necessitam de restauração. Para poder […]

Sob a retina

Minha saudade tem cheiro, som, cor e lugar… Um tempo; o som da máquina velha de lavar. A cor do sol através da cortina; o cheiro do bolinho de chuva no final da tarde; meu esconderijo secreto ao lado do sofá!

Contra o tempo depois da porta

Ela diz que não gostou do café da manhã, olha para o lado, ajeita os óculos, vira a página do livro e continua lendo como se não estivesse lendo nada. O olhar dela tem essa mania. Ele levanta lentamente, tão lentamente que parece ter ensaiado seu corpo para acordar, rola pela cama até chegar ao fim, cai ou levanta. Lentamente As folhas caem com facilidade o outono tem dessas coisas. Ela fecha a cortina, o sol sempre foi um ruído para seu cérebro… Ele chega e logo dorme. Ela escreve Ele vê Ela enxerga Lábios Ela não gosta de doce, na verdade não sabe se gosta tem preguiça de provar, ele chega em casa com caramelos. Ela prefere pizza. Ele doce de leite. Sofá O que acontece com a alma quando o corpo não sabe o que fazer? O que acontece com o coração quando o pulmão começa a desaparecer? Ah não […]

Entre Rio e Mar

Em liquefazer e desfazer o mundo gira lentamente, ele não sabe nada sobre a idade dos meus cabelos, sabe a cor dos meus olhos, talvez. Em dia de chuva lembrei de contar o que passou por mim todos esses dias. Tenho cuidado ao caminhar nas calçadas da rua Salta, os pombos sempre estão alegres nas sacadas, sacanas a espera de uma pessoa atrasada para explorar sua paciência defecando em sua cabeça. Eu quase fui dessas, mas estou sempre quase então a merda passa  cerca dos pés. São segundos precisos do destino que te polpam de um mau humor sem precedentes. Passo pelo verdureiro que sempre me diz um feliz bom dia, passa por mim a moça com pressa, os ônibus quase sempre invadem a calçada minúscula onde todos quase se esbarram em um balé urbano tão suave e displicente de si. Têm as meninas e meninos que pela calçada equilibram bandejas com […]

Espaço ou óculos escuros

Abri a porta com o pé. Já sem paciência, o tempo não está ajudando, não tenho nenhuma estratégia para essa corrosão.   Tenho frio e passo rapidamente as mãos na calça para tentar esquentar, sempre deixo minhas mãos entre as pernas que estão cruzadas.   Talvez você nunca tenha notado, mas te odeio. É que te odeio de uma maneira tão formal que nem se nota. Te odeio como odeio advogados, não te odeio como odeio telemarketing, muitas vezes te odeio como odeio meu despertador.   São semanas que tenho visto coisas que não existem, certo que é esquizofrenia, ou falta de usar os malditos óculos. Mas atualmente ter esquizofrenia é mais cool.   Falta de café, de horas na cama, de outras coisas além de café na cama.   Cafeína, adrenalina, hipotermia, anfetamina, cocaína.   Você fez muitos anos de teatro e isso afetou sua memória real o que complica nossa […]

Papo de banheiro

Era uma vez uma menina que cansou de esperar para a fila do banheiro feminino diminuir… Era uma vez uma menina que tinha que acompanhar seu amigo gay até o banheiro feminino porque haviam batido nele no banheiro masculino no dia anterior… Era uma vez uma menina que foi hostilizada por utilizar o banheiro masculino que estava vazio… Era uma vez… Mas que merda… É só um banheiro!!! ¨Um belo dia em uma manhã de sol a menina resolveu trocar todas as placas dos banheiros que ela pudesse encontrar. Algumas vezes trocava as placas, outras apenas arrancava e deixava a porta vazia. Pânico! As pessoas não sabiam o que fazer sem as placas, filas se formavam na frente das portas, mas ninguém ousava entrar! Até que escutaram uma voz. – Com licença, com licença tô passando, tô apurada gente, deixa eu passar. Ela franzina, cabelo ao vento (totalmente despenteado, estava correndo) com […]

Nem tudo é remendo

Em decadentes ideias de um plural falho e um contexto esdrúxulo de incertezas ela acorda sai da cama vai até a sala deita no sofá, num acorda e dorme descontrolável de existir. A medida que rejeita que seu corpo fique em pé mantém os pensamentos deitados. Não sente os pés no chão e acredita piamente que isso a salvará, sabe que seu corpo sempre a levará para uma direção talvez às vezes constantemente por segundos ou horas composta por um desequilíbrio inerte. Mentir é reflexo da fome que o estômago possui e ela rejeita, disfarça roendo as unhas, algodão não come há anos, tampouco seca a pele no sol depois do banho. Sonha com a realidade e insiste que decepção é coisa para quem se mantém em escritórios com ar condicionado e portas de correr, quando o lugar é composto por cores claras a decepção é eminente. Complica a sala de estar […]

Sobre os diálogos necessários no Plano Municipal de Educação e na vida

Sou muito emotiva e estou longe. Longe para expressar o quanto é difícil ler algumas notícias sobre a cidade que nasci. É triste falar com pessoas que passei anos da minha vida e saber que provavelmente elas não mais me aceitarão por minha posição política, por minha visão de mundo, por minhas escolhas, por tudo que acredito e defendo. Cresci em um bairro considerado podre nessa cidade, podre com relação a bens materiais, pois tive uma educação riquíssima, pais, professores, uma escola municipal que por muito tempo foi referência na cidade. Recordo das atividades extra classe, balé, patrulha do verde, teatro, judô.  As campanhas de vacinação, de educação. Nunca me esquecerei da campanha para saber quantos analfabetos existiam no bairro e realizar um projeto com esses potenciais alunos. Visitei casas tão simples, conheci uma realidade que me fez crescer tanto e valorizar cada livro que poderia ler. Cresci acreditando nas pessoas pela […]

Dias de chuva!

Os dias de chuva sofrem bullying, são tratados como maus. Dia de chuva tem gosto de céu da boca, é dia para caminhar de propósito sem guarda chuva em dia de chuva é bom beijar na rua usar botas só para pisar com força na poça d’água. Não há dia ruim, o dia fica mais cinza nunca descolor quem desbota é a gente! (sobre dias de chuva em Joinville e Buenos Aires)  

Para teus olhos

Entre conhecer e encontrar, Na falta de óculos meus olhos canção. Nesse escancarado escolher conhecer te amar, Deixei meus lábios livres pra gente dançar. Teus olhos, Meu silêncio canção.

Acordei do avesso

Era para estar legal, mas essa coisa toda de chicletes grudado no sapato acaba comigo. Puta que pariu eu morri outra vez!Por isso essa sensação de câimbra, sempre que morro acontece isso. Onde enfiei os cigarros? Acordo do avesso sem saber onde estão os malditos cigarros (essa é a pior parte). Não consigo entender porque quando morro prefiro usar os sapatos ao contrário. Lembro que estava com uma pessoa comendo pastel as 6:00h da manhã na Feira da Glória. Vimos o nascer do sol, escutei toda sua história de vida e pela primeira vez alguém falava mais do que eu. Foi assustador! Depois os outros dias são como flashes, mas eu lembro que dancei com essa mesma pessoa em algum momento. Então acordo com uma puta câimbra e morto. Desde que decidi fazer merda nenhuma da minha vida estou nessa de morrer sem saber onde ou porquê? Tenho certeza que foi depois […]

Voltando para Argentina, ou apenas continuando a viagem…

Depois de muito tempo sem escrever sobre minhas viagens, segue um pequeno relato sobre meu retorno a Argentina, o lugar que escolhi para passar os próximos dois anos. (Com alegria e um tantinho de vaidade que escrevo isso). A viagem por terras peruanas havia terminado (ao menos essa viagem)… Confira no link http://coletivometranca.com.br/peru-e-a-aventura-machu-picchu/ Como eu não viajo de avião (fobia) sabia que a volta seria longa, destino final: Buenos Aires. Já que era para passar muitas horas na estrada que eu tirasse proveito disso, resolvi montar um pequeno roteiro de volta (Cuzco, La Paz, Salta, Córdoba, Buenos Aires). Foi um tal de carimba passaporte, fila no frio, a pior migração foi na fronteira entre Bolívia e Argentina, paciência é a palavra chave, um frio nada agradável e duas horas numa fila onde eu nunca entendia para onde deveria seguir, os trâmites não são feitos em lugares próximos (claro sempre ficava de olho […]

Para teus olhos

Amo do cheiro ao torpor Como se fosse único certeiro   Sigo teu jeito de flor Me entrego do abraço ao remendo   Até costurar o enredo Desde que tenha no teu peito meu braço Na tua mão meu laço e cabelo   Caminho do jeito que for Entrego meu peito pro teu abraço Na tua mão meu amor e anseio  

Bunda

Sinto o vento no rosto, meus olhos cerrados, já não escuto mais nada… Sai do meio da rua filha da puta! Quê é isso mãe? Vixe tem de tudo nesse mundo! Deve sê de teatro, coisa pra televisão. Alguém faz alguma coisa? Tem um carro da polícia ali ôh… Chama ele! Uma puta dor no dente aparece exatamente um dia depois de ir ao dentista e ele dizer que meus dentes são perfeitos, que eu não deveria me preocupar com o fato da pequena prótese ter caído, afinal era pelo lado de dentro, não era estético e tão pouco faria diferença. Na verdade não faria diferença pra ele. Mas eu percebia muito bem a diferença milimétrica no meu dente. A língua percorre de forma obsessiva o espaço existente. Não sinto a superfície lisa do dente, meu problema é esse! Não posso viver passando a língua no dente que era liso e agora […]