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Minorias nas HQs: Kamala Khan e o Islã.

Kamala Khan e o Islã Enquanto algumas minorias lentamente se livram da predominância do clichê na maneira como são representadas em quadrinhos mainstream, outras ainda sofrem para sequer fazerem parte das histórias. E poucos casos são tão notáveis quanto a dos muçulmanos – raramente representados, e em grande parte das vezes, apenas como terroristas – e não só nas hqs; o esteriótipo do muçulmano como terrorista abunda também no cinema e na televisão – mas temos uns (poucos) casos que demonstram como isso está mudando, e nada melhor que nossa figura da semana, Kamala Khan, para demonstrar isso. (Em quadrinhos indie e graphic novels a situação é felizmente bem menos aterradora). Introduzida em Captain America #14, em agosto do ano passado, a nova Miss Marvel (substituindo Carol Danvers, hoje Capitã Marvel) é a primeira personagem islâmica a ter sua própria revista no mercado americano de quadrinhos. Filha de imigrantes paquistaneses, a jovem ganhou seus poderes – mudança de forma – após o […]

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O colonialismo na construção do herói.

Não creio que seja muita novidade para quem gosta de HQs que a base dos quadrinhos de super-heróis é a não tão boa, mas velha, literatura pulp,livrinhos baratos vendidos em bancas e livrarias de pequeno porte no inicio do século passado. Mas tenho minhas dúvidas se a maioria dos leitores compreende o subtexto colonialista da grande maioria dos heróis pulp – e como isso afetou a industria de quadrinhos até hoje. Levem em consideração – a literatura pulp teve seu auge nas décadas de 1910, 20 e 30 – os anos finais do colonialismo europeu.  Como colocado pelo site tvtropes, o que imperava na literatura de ação, fantasia e ficção científica do inicio do século XX (assim como por todo o século XIX) é o “Mighty Whitey” – o poderoso branquelo -o homem branco (em geral anglo-saxão protestante), transplantado para um ambiente selvagem onde representa a “luz da civilização”, e são mais bem dotados, […]

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Entrevista: Pedro Leite (Quadrinhos Ácidos)

Pela segunda vez, a coluna Paradoxo Sequencial se vê tomada por uma entrevista – desta vez com o quadrinista brasileiro Pedro Leite, autor de Tirinhas do Zodíaco e Onde meu Gato Senta. “Um dos maiores desenhistas do brasil” (chegando a mais de dois metros de altura!), meu homônimo hoje produz também a série Quadrinhos Ácidos, com críticas e comentários de questões sociais e absurdos do cotidiano. Foi esta série – vencedora do 30º Troféu Angelo Agostini como melhor fanzine, popular nas redes sociais e marcada por um humor mordaz que pode ser visto aqui – que motivou esta breve e divertida entrevista. Aproveitem! Coletivo Metranca: Como você começou a fazer quadrinhos? Pedro Leite: Apesar de sempre gostar de desenhos, eu acredito que comecei a desenhar tarde. Foi só depois de formado na faculdade que realmente me dediquei mais aos quadrinhos. O meu primeiro projeto grande foi a “Tirinhas do Zodíaco”, criado em 2011 junto com o meu amigo Rafael Koff. […]

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Um demônio contra os justiceiros?

Engraçado como a mensagem apropriada para o momento aparecem em lugares estranhos. Se eu dissesse que uma das mais fortes mensagens contra essa cultura de ódio que impele os “justiceiros” vêm de um mangá de horror marcado pela ultra-violência, eu pareceria louco – e é justamente isso que eu estou aqui para dizer.  Pessoas, conheçam Devilman. Coração de Homem, Corpo de Demônio –  Quando o eternamente transgressor Go Nagai (que criou coisas como Kekko Kamen – uma super heroína que veste mascara, luvas, botas, um cachecol… e mais nada, e o lendário e seminal super robô Mazinger Z) começou a trabalhar em Devilman, em 1972, o título não tinha pretensão alguma: era uma maneira de “matar tempo” do trabalho com uma animação de mesmo título, e uma tentativa de compensar a fracassada tentativa de levar Maou Dante à TV (ironicamente, Devilman TV parecia mais com Maou Dante do que com Devilman). Mas ao longo dos dois […]

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Metranca Entrevista Michel Fiffe

Aos 35 anos, o cubano Michel Fiffe ainda não figura entre os grandes nomes das histórias em quadrinhos – lamentavelmente. Natural de Havana, Fiffe trabalhou com a série Savage Dragon, da Image, antes de se destacar fora dos círculos das grandes editoras com a antologia Zegas, que escreveu, ilustrou, coloriu e publicou por conta própria em 2011. Agora, novamente tem recebido destaque pela série mensal Copra – também publicada de forma autônoma, trabalhada inteiramente por Fiffe – e obteve uma posição privilegiada como roteirista de All New Ultimates, para a Marvel Comics.  Um desafio novo para a já corrida vida do quadrinista. Como inspiração profissional, se destaca o trabalho de Jim Aparo – “um gigante”, segundo Fiffe – o celebrado ilustrador da DC, famoso pela atenção aos detalhes e por ter traçado a memorável cena de Batman # 428, em que o homem morcego encontra o cadáver espancado de seu protegido, Jason Todd. A bela arte de Fiffe pode ser vista […]

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Minorias nos Quadrinhos: O casal gay (e robótico)

Quadrinhos desde a introdução do infame Northstar, nos anos 80, tem sofrido com personagens gays que existem só para dizer “eu sou gay”, e mais nada – certo que o Northstar se casou uns anos atrás, mas não muda que por anos ele foi o “cara gay que nunca deixava a tropa alfa esquecer que ele é gay”. E ele ainda assim é um avanço quando comparado ao primeiro personagem oficialmente gay da DC, o Extraño – um amontoado de clichês que nunca deveria ter sido publicado, e que morreu nas mãos de um vampiro aidético. As coisas melhoraram um bocado nos últimos anos, com representações excelentes tanto no mainstream (como a dupla Apollo e Meia Noite, da falecida Wildstorm, que costumavam ser casados e com uma filha adotiva; A Batwoman Kate Kane e a Questão Reneé Montoya, na DC (tragicamente, pelo madato editorial de Dan Didio, no novo 52 mataram a […]

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A queda que mudou os heróis para sempre

Em junho de 1973, as bancas de revistas e lojas de quadrinhos nos EUA recebiam um título com uma chamada bombástica. Estampada em letras garrafais, The Amazing Spider-Man #121 alarmava: NÃO É UM TRUQUE! NÃO É UMA HISTÓRIA IMAGINÁRIA – MAS O MAIS ESTRONDOSO E INESPERADO PONTO DE VIRADA EM TODA A VIDA DO CABEÇA DE TEIA! Ao mesmo tempo, o herói, exasperado exclamava: “Alguém próximo a mim irá morrer! Alguém que eu não posso salvar! Mas QUEM? QUEM?!”. À época, capaz assim alarmistas abundavam, e essa parecia mais uma chamada polêmica para vender uma revista que nada mudaria – afinal, essa era a época em que os heróis não falhavam, os vilões sempre perdiam, e nada tinha consequências. A revista, com roteiro de Gerry Conway e arte de Gil Kane, enigmaticamente clamava na primeira página que “não poderia contar o título deste conto”! Norman Osborn, o Duende Verde, que anteriormente não tinha lembranças de seus […]

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Capitão America: O soldado Invernal – Um épico de crítica aos EUA.

Uma coisa diferente desta vez: ao invés de falar de quadrinhos diretamente, o objeto de hoje é um filme – de quadrinhos, mas ainda assim um filme. Segurei o tópico até esta semana, pois não queria comentar antes da estréia nacional (aqui na Dinamarca estreou já tem duas semanas e meia). Com vocês, Capitão America: O soldado Invernal Não vou fazer segredo que sou um fã imenso do Cap – minha monografia foi sobre ele, para dar um exemplo – e não teria como fazer uma crítica imparcial do filme. E pelo estudo todo para a monografia posso afirmar que há um desconhecimento muito grande sobre o personagem, centrado naquela velha e batida ideia do Capitão America como “O campeão do imperialismo americano” e “o ícone do capitalismo”. Temi, em partes, que graças ao dom hollywoodiano para estragar boas coisas este terminasse como o abismal The Ultimates, de Mark Millar (que envolvia o Capitão America berrando “Desistir? Desistir?! […]

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Minorias nos comics: O negro genial, Mister Terrific (DC)

Pela segunda vez e nem de longe a última, vou tratar de minorias em comics – desta vez, um dos raros casos de super heróis negros, e ainda mais raros casos onde ele não é tribal, do gueto, “zangado”, ou um ex-criminoso. Com vocês Michael “Mister Terrific” Holt. De uma maneira geral, super heróis negros se encaixam em duas grandes categorias: o “negro zangado” – melhor representado pelo Power Man/Luke Cage, mas que também incluí a grande maioria dos heróis negros “de legado”, onde a principal característica é que ele é negro, está cansado disso e não vai mais aceitar essa palhaçada, enquanto o cúmulo disso é Rage, um personagem da Marvel que é… um Hulk negro, pobre, e com uma máscara de Luchador (nunca disse que as coisas faziam sentido). O outro é o “herói tribal”, onde a fonte dos poderes, o tema, e a origem do herói é “a África mais densa”, […]

Quadrinho vigilantismo
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A mente por trás do vigilantismo

O vigilantismo tem sido desde os primórdios um tema farto para histórias em quadrinhos; desde o mais popular super-herói de todos os tempos (Batman, pra quem não sabe) até casos cult como Rorschach, Questão e Senhor A passando por anti-vilões (para quem não sabe: o vilão com motivações que se passariam por nobres) como Comediante, Justiceiro, e o não muito criativamente nomeado Vigilante, o homem de mistério que faz a justiça com “esse que é irmão desse” passou por um grande numero de iterações – mas poucas parecem abordar de fato a mente… conturbada que levaria um cidadão “ordinário” a sair pelas ruas fantasiado “levando justiça” à sua própria maneira. E menos ainda fazem aquela perguntinha básica, mas importante… “isso é heroísmo?” Sim, o Batman é um personagem altamente complexo; sim, Rorschach (talvez um dos mais desenvolvidos personagens desse tipo em quadrinhos impressos) é uma figura imensamente perturbada, e que serviria de base para livros e mais […]

Capa, exemplo de minorias em quadrinhos
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Minorias em quadrinhos: Arnie Roth, o gay de meia idade.

Certo que a representatividade de minorias em quadrinhos, ou comics – o mainstream da arte sequencial americana – avançou muito desde o tempo em que negros eram mostrados como gollywogs e asiáticos eram “a ameaça amarela”, mas ainda temos algumas coisas ainda problemáticas nesse sentido… Ainda abundam os clichês (tipo o herói negro que é “tananan Negro”, ou o herói asiático que é um mestre de artes marciais), e predominam os heróis brancos-hetero-30-e-poucos-anos, acima de qualquer outro grupo, e  (quer prova? Me diga três heroínas negras da Marvel, que não a Tempestade). Mas as coisas estão mudando… e pra mostrar isso, um breve resgate de comics  que trabalharam minorias com gosto. Lembrando que estou falando de comics, não de graphic novels – que trataram disso de maneira muito mais aprofundada que as revistinhas, já tem algum tempo, por se tratar de um modelo menos comercial (e nem vou entrar aqui no underground). Isso vai ter […]

Sem imagem
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A pioneira, o projeto, e o processo.

E.C: Pioneira contra a discriminação Ainda uma década antes da “Casa das Ideias” lidar de maneira sutil com o tópico em seus X-Men, uma editora hoje já falecida abordava abertamente o racismo e a desigualdade social em seus quadrinhos – e de forma polêmica. Em março de 1953, a E.C. Comics publicava uma obra prima da arte sequencial: “Judgment Day”, de Al Feldstein e Joe Orlando. Uma história breve (apenas sete páginas) sobre um astronauta em visita à um planeta de robôs, onde a sociedade é dividida entre os robôs laranjas e os robôs azuis. Sem nenhuma diferença fora a pintura, os robôs azuis são dotados de menos direitos, vivém em condições inferiores à seus pares laranjas – em virtude da cor, recebem “educadores” piores, trabalhos degradantes e forçados a viver em favelas e cortiços. Lembrados de que nada os difere, a única resposta dada ao astronauta é “sempre foi assim” – o que faz com que, […]