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Traíras, Traíras por toda parte

Tem certos tipos de personagem que são recorrentes a ponto de beirarem o clichê. Personas arquetípicas tão universais quanto o ato narrativo em si. Um desses arquétipos, do qual quero tratar aqui, é o subalterno traiçoeiro, uma figura recorrente em histórias de ficção científica, super heróis, desenhos de ação, fantasia medieval, dramas históricos…   Ou seja, em tudo.   O tipo é bem conhecido, em geral sendo o segundo em comando de sua organização. Sua característica primária é a ambição, a ânsia pela liderança. Por mais que seus superiores confiem (ou não) neles, são personagens que os leitores sabem que estão apenas a espera da oportunidade de derrubar o regente e assumir o trono, apunhalar o general e tomar o controle, depor o presidente e se empossar no lugar e por aí vai.   Esse arquétipo do subalterno ambicioso e pérfido é antigo – muito antigo, e como quase todo clichê, tem […]

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Antes de Game of Trones, havia 三國演義 – os três reinos

O épico de fantasia de George R.R. Martin parece ter virada um sinônimo de drama político medieval. Mesmo desprovido de qualquer caráter histórico e sendo situado em um mundo fantástico, seus livros e a série que inspiraram viraram o nome padrão para falar de romances  focados nos traiçoeiros meios da guerra. Mas muito antes do escritor de Nova Jersey nascer, outra obra explorava com igual fervor os dramas, as traições e a perda de vidas em nome do poder. Pouco conhecida no ocidente, 三國演義 (SanGuoYanyi, ou O Romance dos Três Reinos) explorava o jogo de interesses em um dos períodos mais conturbados da história chinesa. Atribuído ao dramaturgo Luo Guanzhong (1330-1400 d.c.) e baseado no vasto trabalho de pesquisa histórica de Chen Shou (233-279 d.c), o épico de 800 mil palavras trata da queda da dinastia Han oriental (a segunda dinastia imperial chinesa, governando a china de 206 a.c a 220 d.c.) e da disputa de poder em meio ao […]

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Zoids: Animais robôs com armas. O que não amar?

No longínquo e desértico planeta Zi, três nações estão em guerra. O Império de Zenebas enfrenta uma derrota após a outra contra a nascente República de Helic, e os sacríficios em nome da guerra colocam o mundo em risco. Ante a derrota, o imperador Zenebas faz um metafórico pacto com o diabo: uma aliança com o militarista império de Guylos – e assim ameaça consumir o mundo em chamas. A guerra mudou: onde antes estavam tanques e aviões, as nações de Zi contam com o poderio militar das espécies nativas do planeta, organismos mecânicos chamados Zoids.   Eis o cenário de uma das mais perseverantes linhas de model kits de robôs gigantes no Japão, Zoids. Criada pela TOMY em 1982, a macro-série pode ser vista como a resposta da Tomy para o sucesso de Gundam pela Bandai. Com padrões de design diferentes, mas enfoques similares em sua narrativa, ambas lidam com a […]

DC Rebirth
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O problema da continuidade e o Retcon

Muito já disse pela nerdosfera a respeito do plot twist de Steve Rogers: Captain America #1 (em breve, sai o número dois). Eu mesmo já fiz um artigo tratando da implausibilidade da revelação final da edição e da trama proposta pelo roteirista. Muito se defendeu o autor, com base na rotatividade da indústria de quadrinhos e na desculpa de que “dá uns dois anos e desfazem isso”   Mas há um detalhe importante que poucas críticas – e quase nenhuma das defesas ao trabalho – abordou: a maneira como a trama de Nick Spencer afeta mais do que somente as edições futuras do Capitão América. Com o twist e a revelação de que Steve Rogers é e sempre foi um agente da Hydra, todas as histórias publicadas são afetadas. É um exemplo clássico de continuidade retroativa, um retcon, ferramenta usada com uma frequência alarmante na indústria de quadrinhos (e também no cinema, na […]

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The Fixer: um olhar obre a Bósnia e o jornalismo

Faz algum tempo que eu não passo sugestões de leitura, e algum tempo que eu não falo de um dos autores mais interessantes da modernidade, Joe Sacco. Sacco foi um dos (se não O) pioneiros em mesclar o trabalho jornalístico com a arte sequencial. De sua obra mais famosa, Palestina, já falei no Coletivo Metranca (link) . Mas Palestin e sua sucessora espiritual Notas Sobre Gaza não são as únicas obras de Sacco como jornalista de guerra. Publicada em 2003 (e nomeada pela Time como um dos melhores quadrinhos daquele ano), The Fixer (“O Mediador, em uma tradução livre) trata da guerra da Bósnia por um ângulo pouco usual. Biografia, reportagem de guerra e pesquisa histórica em partes iguais, a Graphic Novel de Joe Sacco trata de seu retorno à Bósnia em 2001, seis anos após o conflito (1992-1995) e sua reaproximação com Neven – o beberrão e fanfarrão veterano que lhe servira como […]

Rom # 1
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Relembrando ROM, O cavaleiro do espaço

Rom, Senhor da ordem da estrela Sol. Rom, o exterminador de Espectros. Rom, o Cavaleiro do Espaço.   Parece-me que um certo personagem relativamente obscuro dos quadrinhos dos anos 80 está em alta… Com um título novo resetando sua narrativa e a possibilidade de uma aparição no cinema, Rom, o Cavaleiro do Espaço é uma das jóias perdidas da era de bronze da Marvel. Sua influência no universo da Casa das Ideias é sentida até hoje – mas o herói metálico desapareceu por completo das páginas dos quadrinhos.   Mas afinal, quem é Rom? Quem é este ciborgue misterioso em sua cruzada eterna contra os espectros da nebulosa sombria? Quem é o maior dos cavaleiros do espaço? E afinal, por que ele desapareceu dos quadrinhos por quase 30 anos, apenas para voltar em outra editora?   O boneco   Como muitos quadrinhos dos anos 80, Rom era fruto de licenciamento de uma […]

Metal Hurlànt Chronicles
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Metal Hurlànt Chronicles: um olhar sobre a série

No longo cânone das antologias de ficção científica, poucas revistas tiveram um impacto tão grande quanto a francesa Metal Hurlánt (que deu origem à americana Heavy Metal). Dotada do erotismo (não poucas vezes sexista) dos quadrinhos europeus, tramas que dividem a genialidade de suas reviravoltas com Além da Imaginação e uma criatividade infindável, a revista contava com artistas como Moebius, Milo Manara, Alejandro Jodorowski e Frank Margerin. Mas não estou aqui para falar da revista (ao menos não desta vez). Não é de se surpreender que a revista tenha servido de base para uma série de TV. O que é de se surpreender é o quanto demorou. Estrelando no canal público France 4 em 2012, a minissérie Metal Hurlànt Chronicles, de Guillaume Labrano, levou às telas um total de 13 histórias da revista, entre 2012 e 2014. Para conectar e apresentar as tramas, a narração de Benóit Allemane contava uma história a mais: a do “último fragmento de um planeta vivo”, cruzando as estrelas em tristeza e […]

Vozes de uma Estrela Distante
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Vozes de uma estrela distante

A separação entre amantes causada pela guerra é um tema já velho. Os dilemas da distância, da incerteza e da perda já foram abordados centenas de vezes por autores, diretores, músicos e dramaturgos – e não poucos ao longo da história enfrentaram o sofrimento dos dias de espera por alguma notícia da pessoa amada. A ficção científica e a animação não são estranhas a esse tema. Mas e quando o front não fica a dias de distância, mas anos? Quando a linha de batalha não fica em outro país ou outro continente, mas em órbita de outra estrela? Pode um relacionamento sobreviver quando mensagens levam meses, depois anos para chegar? Makoto Shinkai se propôs a abordar esse dilema em seu primeiro filme comercial, Hoshi no Koe (Vozes de uma estrela distante) de 2003 (seus filmes anteriores, Ela e seu gato, de 1999 e Outros Mundos, de 1997, não foram distribuídos). Com apenas 24 minutos […]

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Baú de Brinquedos: Os Transformers

Algum tempo atrás, eu falei das sublinhas de Transformers que marcaram a segunda metade dos anos 80. Na ocasião, eu disse que mais adiante eu faria um texto sobre as raízes de Transformers e a linha original. E bem, chegou a hora. Hora de falar dos mais bem sucedidos dos robôs-que-viram-coisas dos anos 80. E esclarecer alguns mitos sobre a linha que parecem perdurar tempo demais.   Um erro comum quanto a Transformers é achar que a Hasbro importe os brinquedos do Japão, e que a linha seja só o lançamento ocidental de uma série Japonesa. Enquanto é verdade (como veremos abaixo) que os moldes originais de Transformers pertenciam a linhas pré-existentes, a Hasbro fez muito mais do que meramente colocar eles em uma caixa nova. Partindo de um punhado de coleções japonesas que não deram certo no ocidente, a Hasbro, em parceria com a Marvel, criou todo um corpo de ficção […]

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Capitão América, nazista secreto?

Que a indústria de quadrinhos seja cheia de reviravoltas sem noção, não é novidade. Mas este mês a Marvel conseguiu se superar: a edição #1 de Steve Rogers – Captain America fez um dos retcons mais “chocantes” e insultosos da história dos quadrinhos: O Capitão América original, Steve Rogers, se revela um agente da Hidra após matar o herói Jack Flag.   E antes que se descarte a cena de Rogers dizendo “Hail Hydra” como sendo parte de um plano para se infiltrar na organização, flashbacks ao longo da edição revelam que nos anos 20, quando Rogers era uma criança, sua mãe Sarah foi recrutada pela Hidra por uma misteriosa Srta. Sinclair, e que o futuro Capitão América foi doutrinado nos ideais do grupo nazista.   Segundo o editor Tom Breevort e o roteirista Nick Spencer, isso é pra valer: não é controle mental, memórias falsas, um clone ou o Capitão fingindo […]

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A insanidade bombada de He-man e os mestres do universo 

Os anos 80 foram uma fonte interminável de linhas de brinquedos absolutamente bizarras, e acompanhando essas linhas de brinquedos memoráveis, estavam desenhos igualmente estranhos. Mas nada é mais emblemático da relação promíscua de animação e brinquedos do que He-Man e os Mestres do Universo. Criada pela Mattel em 1982, a linha de brinquedos de He-Man e os Mestres do Universo surgiu como mais uma das tentativas da empresa de se recuperar de um dos seus maiores erros: ter recusado a proposta de George Lucas para produzirem os brinquedos de Star Wars. A ideia para o bárbaro bombadão foi de Roger Sweet. As três faces da loucura Sweet percebeu duas coisas essenciais: uma era que a linha tinha que ter identidade própria (e não repetir o erro da tentativa anterior da Mattel, Big Jim, e copiar a concorrência) e a outra é que ela teria que ser simples. Com essas coisas em mente, […]

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Godzilla – Um (não tão) Breve resumo do “Rei dos Monstros”

Ano passado, eu postei em meu blog duas listas sobre os fantásticos seres que habitam os filmes de monstros gigantes. No entanto, ao meu ver, dois míseros parágrafos em uma lista de outros 13 monstros não são o bastante para tratar de forma adequada de Godzilla o “Rei dos Monstros”. Ele merece mais do que isso.   Godzilla é um ícone do cinema japonês e uma das figuras mais memoráveis do cinema. Nascido dos horrores da era atômica, um pesadelo nuclear dado vida. Fruto do indiscutível mestre dos Kaiju, Ishiro Honda (que testemunhou um teste nuclear em 1954, enquanto concebia sua obra prima), o homem que deu personalidade aos monstros gigantes. Se restringir a uma notinha é um desrespeito. Este é um breve dossiê dos mais de 60 anos de carreira do Rei dos Monstros. Poucos personagens do Cinema se mantiveram relevantes e rentáveis por tanto tempo. O que escrevo aqui é […]

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Bowie, Mandela, e o radicalismo online

Entre 1974 e 1976, o músico, ator e compositor britânico David Bowie esteve em um lugar muito sombrio. Sob a sua última persona artística, o Duque Branco e Magro, Bowie viveu a base de uma dieta, em suas palavras, de pimenta, leite e cocaína. Personificando o pior da humanidade, Bowie e o Duque se converteram em uma coisa só. Essa fase foi marcada por um fascínio profundo pelo fascismo – culminando em uma entrevista vergonhosa para a Playboy, em que Bowie exaltou a necessidade de um regime nazi-fascista no Reino Unido, e chamou Hitler de “o primeiro rock star”. O artista nunca negou esse período de sua vida. Jamais fez segredo ou pouco caso de seu condenável passado nazista. Mas após sua morte neste domingo, essa fase de sua vida, uma nódoa da qual ele jamais escondeu seu remorso (e da qual pouco se lembrava, dada as quantias homéricas de drogas que […]

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Camaleão do rock, das artes e da vida – Adeus, Bowie

Perdemos um dos maiores músicos que o mundo já teve. Um dos artistas mais versáteis da história, e um dos maiores letristas que a humanidade já teve. Ator, compositor e cantor, a carreira de David Jones/David Bowie/Ziggy Stardust/Aladin Sane/The Thin White Duke permeu mais de meio século. Abordou, através de fantasia, ficção científica e a mais dura realidade os dramas da condição humana. Poucos músicos podem sonhar em ter um repertório tão versátil, que vá de tragédias como I’ve not been to Oxford Town e Life on Mars até delírios hippie como Memory of a Free Festival, passando por músicas apocalípticas como The Man who Sold the World e Cygnet Committee, e até uma balada folk como THe Laughing Gnome. Bowie se junta ao rol de lendas da música. Assim como seu estilo musical, suas posições oscilaram entre extremos. Já foi um idealista, já foi um fascista, e já foi indiferente aos […]