Baú de Brinquedos

Baú de Brinquedos: Machine Wars

Machine Wars: uma das demonstrações mais claras de que fãs não sabem o que querem   Muito, muito tempo atrás, eu falei de Generation 2, a primeira grande tentativa de reviver Transformers. Lançada entre 1992 e 1995, a sublinha foi marcada por inovações de engenharia, quadrinhos horríveis e animação reciclada. Como notado no texto, G2 fracassou em preservar a presença de mercado de Transformers. Com as vendas de suas linhas para meninos em queda, a Hasbro transferiu suas linhas masculinas para a subsidiária Kenner, que deu início a primeira grande reinvenção da linha: Beast Wars. Mas não é de Beast Wars que estamos falando aqui. Lançada em 1996, a nova série de Transformers mudava tudo: Autobots e Decepticons davam lugar a Maximals e Predacons. Optimus Prime dava lugar a Optimus Primal enquanto Megatron era substituído por… outro Megatron, dublado pelo genial David Kaye. Hoje tida como uma das – se não A – […]

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Afinal, o que separa Action Figure de boneco?

“Não é boneco, é action figure”   “Não chama meus action figures de boneco”   “Eu não coleciono brinquedos, são action figures”   Frases como essas são comuns em meios nerds – comuns até demais. Dentro do colecionismo brasileiro, há uma forte fixação com o termo “Action Figure” e com a ideia de que, ao usá-lo, se dá um tom de legitimidade à sua coleção. E derivada desta fixação, há a certeza de que “boneco” e “action figure” são duas coisas opostas, antagônicas e contraditórias. Para grande parte dos colecionadores brasileiros, Action Figure – lit, “figura de ação” – representa o oposto de um “boneco”: enquanto a última traz conotações de infantilidade e “pobreza”, a primeira expressão é usada como denotador de qualidade e “maturidade”. Mas como veremos com a história longa e não tão conturbada do termo, a questão é puramente semântica: “Action Figure” não passa de um termo anglófono para […]

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Como marketing moldou a Marvel: Secret Wars

O ano: 1984. Maio. Sob letras garrafais, em um evento bombástico e sem precedentes na indústria de quadrinhos, a Marvel Comics juntava seus maiores heróis em uma única trama de proporções cósmicas. Com roteiro de Jim Shooter e arte de Mike Zeck e Bob Layton, a “casa das ideias” surpreendia o público americano com uma história incrível: uma entidade cósmica chamada  Beyonder havia abduzido os maiores heróis e vilões da Terra, forçando-os a lutar para o seu entretenimento em troca do maior prêmio de todos: a realização de um único desejo. Era dado início às Guerras Secretas. Afetando todo universo Marvel… Um dos primeiros “mega eventos” da indústria de quadrinhos, Guerras Secretas causou alterações em quase todos os personagens envolvidos: novos uniformes, novos poderes, novos apetrechos… Anos de histórias futuras foram pautados em elementos introduzidos em Guerras Secretas, com seu resultado mais famoso sendo o super-vilão, posterior anti-herói Venom – surgido do uniforme negro que o Homem-Aranha recebeu como parte […]

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Baú de Brinquedos: War Planets

Nem todas as linhas de brinquedos dão certo: Acostumada a depender de produtos licenciados desde seu imenso sucesso com Godzilla em 1994, em 1996 a Trendmasters tentou entrar no mercado de brinquedos originais sem muito sucesso com uma das parcas linhas de seu tempo sem apoio de um desenho animado – ao menos de início: War Planets.   Bebendo da febre espacial dos anos 90 e do sucesso de playsets como Might Max e Micromachines, a linha da Trendmasters se centrava no conflito interplanetário em um pequeno sistema estelar, onde os planetas Rocha, Fogo, Água, Gelo, Tek, Areia, Osso, Remora e Reptizar lutavam pelo domínio do sistema. Cada planeta tinha um estilo estético próprio, assim como seu arsenal particular para travar a interminável guerra entre os mundos.  O conceito era o mesmo de toda linha centrada em playsets: cada planeta – assim como suas “Luas de batalha”, veículos e “super luas” – […]

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Fãs, discursos e radicalismos

Fandoms tem um problema grave de fanatismo e intolerância, junto com um apego doentio à versões de sua obra amada que não conferem com a realidade da mesma. Isso é uma questão antiga que parece ser tão antiga quanto a própria existência de fandoms. Os extremos dos discursos digitais sobre quadrinhos, literatura e cinema são um caso interessante. De um lado, temos uma brigada conservadora que espuma pela boca caso haja um único personagem não hetero-branco-cristão em suas revistas e insiste em reescrever a história dos personagens para confirmar suas posições (vide dizer que Steve Rogers sempre foi conservador). No extremo oposto, visto primariamente em redes sociais “alternativas” como Tumblr e Archive of our own, temos uma brigada “progressista” que espuma pela boca alegando homofobia sempre que seus headcanons sobre o herói X ser gay/bi/ace/trans não se concretizam.   Os dois lados demonstram simultaneamente um interesse patológico E uma total falta de […]

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Baú de Brinquedos: A oportunidade perdida de Exosquad

O ano é 2119. A Comunidade Humana se espalhou pelo sistema solar, colonizando os planetas de Marte e Venus. Longe dos planetas natais, orbitando o Cinturão de Asteróides e os planetas Exteriores, vastos clãs de piratas ameaçam a estabilidade do sistema. Das cinzas da guerra, outra ameaça surge. Criados como mão de obra barata e soldados descartáveis durante a expansão da esfera humana, uma nova raça se insurge: Os Neo-sapiens, dando início a uma segunda guerra entre os humanos e suas criações. Neste novo campo de batalha, a arma mais comum é o E-Frame, gigantescos exo-esqueletos blindados desenvolvidos a partir do maquinário usado na Terraformação. Estas são as histórias do Esquadrão Able durante a segunda Revolta Neosapien.   O parágrafo acima resume mal e porcamente uma das mais interessantes obras da animação “publicitária” dos EUA: Exosquad, uma produção da Universal Cartoon Studios em parceria com a Playmates Toys. Em 1993, a indústria de […]

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O medo dos robôs e o medo de uma revolução

No clássico cinematográfico Blade Runner, adaptado do livro Androids Dream with Electric Sheep, de Phillip K. Dick, um pequeno grupo de replicantes liderados por Roy Batty se revolta contra seus criadores em busca de seu direito à vida. Em Ghost in the Shell, de Mamoru Ohshii com base em Masamune Shirow, uma inteligência artificial passa a roubar corpos em busca não apenas do sentido de sua existência, mas de seu direito de existir. Já no conto All the Troubles of the World, de Isaac Asimov, o super computador Multivac manipula a humanidade para levar à sua própria desativação. E na canção Saviour Machine, de David Bowie, a epônima “máquina salvadora” tenta futilmente convencer a humanidade a destruí-la. Em comum as quatro histórias citadas tem a objetificação e escravização de mentes inteligentes – mesmo que artificiais – como motor de seus conflitos.   Embora o tópico seja abundante nos anais da ficção científica, é raro que […]

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Logan: mais do que X-Men, um drama sobre paternidade

Ao longo dos seus 17 anos, a franquia dos filmes dos X-Men oscilou do bom ao horrendo, e em sua zona mais baixa estavam os filmes do Wolverine. Circulando pelas três narrativas mais comuns ao gênero de super heróis- histórias de ação puramente escapistas, alegorias sócio-políticas e discussões filosóficas cujos personagens são meros adereços da narrativa – seria de se esperar que a peça final do Logan de Hugh Jackman repetisse os erros dos prévios “Wolverine” e “Wolverine: Imortal”. Mas “Logan” vai por uma área inexplorada para os filmes de quadrinhos. Abraçando seu material de origem ao mesmo tempo se despe da imaturidade do mesmo, o filme de James Mangold ousa e nos oferece um drama de personagem pesado cujos elementos fantásticos servem de pano de fundo para uma história humana. As discussões sobre preconceito e bioética que marcam os filmes dos X-Men continuam lá,  mas são adereços para uma história que […]

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Baú de Brinquedos: Transformers Geração 2

O ano era 1993. Após sucessivas reinvenções e inúmeras sublinhas, a antes imponente linha Transformers se via reduzida ao mercado Europeu. Nos EUA, os robôs cybertronianos perdeiam desde 1988 uma longa batalha contra a Tartaruga-mania. No Japão, a Takara os abandonava em nome de uma franquia nova, Yuusha. Em uma tentativa desesperada de salvar a franquia, a Hasbro fazia o primeiro “reboot” de Transformers: Generation 2. Foi nessa situação que a linha começou a se reinventar e se adequar aos tempos… ou ao menos que ficaram EXTREEEEEEEEEEMOSSSS. Embora retornasse às origens e se propusesse a recomeçar a história do zero, G2 era o mais claro rehash de Geração 1: Autobots e Decepticons (agora com insígnias novas) levavam sua guerra do distante planeta cybertron para o meio-oeste americano no ano 1984 1993. Na liderança dos Autobots estava o caminhão Optimus Prime (literalmente a mesma figura de 1984, só com mais armas e uma caixa […]

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O dilema da morte no mundo dos super heróis

Existem duas regras perenes quanto a narrativa de super-heróis: 1º, Heróis não matam – matar é coisa de vilão, e heróis sempre encontram outra maneira. 2º, As vezes não há outra maneira e heróis tem que matar para salvar vidas. A contradição entre essas duas regras narrativas, praticamente cimentadas em pedra, é um velho problema dos quadrinhos de super-heróis (e similares) e não raramente vira um clichê hipócrita e surreal.   Afinal, como lidar com a aparente imortalidade dos vilões de quadrinhos – e até que ponto a superioridade moral do homem que não mata é realmente superior a do homem que mata? As coisas sempre foram assim? E não seria melhor se o Super-Homem saísse por aí matando todos os caras maus?   Nem sempre tão pacifistas: os tempos em que heróis matavam   Há um fato importante que é muitas vezes ignorado ao se tratar da questão do matar ou […]

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Fandoms e o anseio por violência

Ocasionalmente, fandoms acabam por servir como uma janela peculiar para a mente humana e para o status quo social. Não é sem motivo: como um pequeno microcosmo da sociedade, as fanbases refletem muitos dos preconceitos, anseios e desejos da sociedade de onde vem seus integrantes.   Uma das formas nas quais este espelho é particularmente interessante é a relação dos fandoms com a violência – e as maneiras como está é vista como justificável, aceitável ou até louvável para grupos de fãs. O debate quanto ao uso da violência e particularmente da força letal é longo e complexo. O que para alguns é inaceitável, para outros é o correto é justo; onde uns veem um apelo desnecessário à força, outros encontram justiça. O que para alguns é vingança, para outros é retribuição.   Nessa leitura, a intenção autoral se torna irrelevante. Como nota Foucault, o Autor está morto: seus desejos e intenções […]

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Tropas Estelares, Earthsea e etnicidade em adaptações

Certas obras não dão sorte quando o assunto é a etnia dos seus personagens. O clássico “Tropas Estelares” de Robert A. Heinlein é um bom exemplo: protagonizado pelo filipino-argentino Juan “Jonny” Rico, a obra foi levada às telas quatro vezes (em vídeo, filme, como uma minissérie para TV e um filme animado) nenhuma das quais preservou a etnicidade do protagonista. No OVA Uchuu Senki, de 1988, pelo estúdio japonês Sunrise, no lugar do filipino dos livros temos um Rico de pele clara e cabelos loiros; a minissérie também trocou a bronzeada Carmencita Ibañez por uma Carmen pálida de olhos azuis claros. Em 1997, levada aos cinemas por Paul Verhoeven, a obra teve seu protagonista trocado pelo alvo John “Johnny” Rico, interpretado por Casper Van Dien; a mudança foi intencional, motivada pelo caráter do filme como uma sátira do livro (lido pelo diretor holandês como uma apologia ao fascismo) na forma de um […]

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Islamofobia e o editorial da Charlie Hebdo

Não é sem motivo que em 2001 Christopher Allen ressaltou as similaridades entre as imagens referentes ao islã propagandeadas na mídia após o 11 de Setembro e a propaganda nazista referente aos judeus. Nos 15 anos que se sucederam aos atentados perpetrados pela Al Qaeda, a imagem do islã foi associada diretamente ao terror. O antigo fascínio orientalista pela “magia das arábias” (em si já racista e xenofóbico, transformando o árabe em um “outro” exótico e alienígena) deu lugar a uma visão demonizada, onde o islã passava a ser “a antítese da civilização”. Em 2001, a face pública do islamismo, escolhida pela mídia americana era o pregador egípcio Abu Hamza. Como Allen nota, Hamza era a imagem do barbarismo; seus ganchos eram brutais “cicatrizes de guerra” de uma sociedade bárbara com a qual a civilização não poderia conviver. Em uma pessoa só, Hamza incorporava todos os clichês islamofobicos, personificando a imagem do […]

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Traíras, Traíras por toda parte

Tem certos tipos de personagem que são recorrentes a ponto de beirarem o clichê. Personas arquetípicas tão universais quanto o ato narrativo em si. Um desses arquétipos, do qual quero tratar aqui, é o subalterno traiçoeiro, uma figura recorrente em histórias de ficção científica, super heróis, desenhos de ação, fantasia medieval, dramas históricos…   Ou seja, em tudo.   O tipo é bem conhecido, em geral sendo o segundo em comando de sua organização. Sua característica primária é a ambição, a ânsia pela liderança. Por mais que seus superiores confiem (ou não) neles, são personagens que os leitores sabem que estão apenas a espera da oportunidade de derrubar o regente e assumir o trono, apunhalar o general e tomar o controle, depor o presidente e se empossar no lugar e por aí vai.   Esse arquétipo do subalterno ambicioso e pérfido é antigo – muito antigo, e como quase todo clichê, tem […]