As minorias nos quadrinhos: Whitewash Jones, Steamboat e a caricatura

Whitewash-Jones
Essa imagem é lisonjeira – acredite, o normal dele é cartunesco.

Pois é pessoas… se antes, com o Senhor Incrível eu falei de um personagem negro feito de forma respeitosa (e ainda vou falar do Falcão, o primeiro super herói afro americano), hoje são outros quinhentos: conheçam Whitewash Jones, o um personagem recorrente negro de Young Allies, da extinta Timely Comics. O primeiro “herói” negro da editora que vinte anos depois se tornaria a Marvel surgiu em 1941 – e é um ótimo exemplo de como as representações de minorias mudaram desde então.

Com traços exagerados a ponto de parecer saído de uma realidade diferente da dos outros personagens e um estilo de fala… “único”, Jones traz todos os pontos nefastos das caricaturas racistas de negros do começo do século passado: lábios gigantescos e destoantes, olhos esbugalhados, orelhas de abano quase simiescas… Jones fica na verdade a meio passo de ser um Gollywog ou um Pickaninny, e parece muito mais um caso de whiteface do que um homem negro.

E em termos de personalidade, não era muito melhor: fala limitada, inglês quebrado, e uma das suas primeiras falas foi dizer “E mim também ser bom na melancia”. Em suas cerca de 40 aparições em Young Allies, Jones era covarde, supersticioso, ignorante e incapaz de entender conceitos básicos. E infelizmente… isso não era uma exclusividade dele: praticamente todo personagem negro à época sofria dos mesmos clichês raciais. Se por si só Jones era uma coisa gritante, ao lado de Bucky e Centelha, as coisas eram ainda mais aberrantes – e pior ainda quando as histórias envolviam o Capitão América, Namor ou Tocha Humana. 


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steamboat2-620x851Sim, era uma época diferente: uma em que feiticeiras voodoo eram compradas com nabos e miçangas (isso aconteceu, em Captain Marvel, da falecida Fawcett), e Whitewash não era o único personagem assim no mercado: a revista supracitada tinha outro caso igualmente ofensivo no criado de Billy Batson, Steamboat. Embora não tão grotesco quanto Jones, Steamboat sofria dos mesmos problemas: caricato, ignorante, fala limitada (e que foi ficando mais limitada ao longo da publicação), com o adicional de estar em uma posição de servitude.

Steamboat também merece destaque por ter puxado uma navalha como resultado de não entender a língua que alguém estava falando. (puxando aí outro estereótipo, o de que negros são violentos). A representação era tão negativa, que em 1945 11 MIL crianças de Nova York fizeram uma petição para que a Fawcett parasse de usar personagens “racialmente ofensivos”, e trouxesse representações mais positivas de negros e asiáticos (tópico que vou tocar outro dia). Steamboat foi aposentado no mesmo ano.

O aterrador, no entanto, é que esses personagens eram o que à época se passava por inclusão; Segundo C.C. Beck, um dos criadores de Steamboat, a intenção era “conquistar os leitores negros”, mas lamentavelmente “eles levaram o personagem a sério demais”. Há de se reconhecer que numa época em que o Capitão América tinha um inimigo que era um serial killer porque ele tinha a mão de um negro, e que haviam histórias de terror que terminavam com o twist de que ciclana era negra, era um avanço – no entanto, ainda é chocante para nossos olhos contemporâneos, e certamente era insultoso para negros à época.

The_Spirit_10Um caso menos negativo (mas longe de ser positivo) dessa época é o taxista Ebony White, de The Spirit. Embora ainda uma caricatura racial e com um nome que é uma piada ruim (Alvejante Jones? Barco a Vapor – ou seja, movido a carvão? – Ébano Branco?), Ebony não era uma figura subalterna, não era ignorante (apesar das falas seguirem o padrão de shows de menestrel da época), o personagem como um todo não era uma caricatura: era mais um Tom Sawyer moderno que por acaso era negro – o que atraiu elogios dos movimentos negros. Ainda nos anos 40 o rapaz recebeu uma educação formal custeada pelo parceiro heróico, e anos mais tarde, em sua Graphic Novel Fagin, o Judeu, Eisner reconheceu o leve racismo por trás de Ebony, enquanto comentava o racismo de Dickens em Fagin.

E sim, as coisas mudaram bastante desde então: os anos 60 viram a introdução de heróis negros de fato, como o Falcão e o Pantera Negra. Estes geraram escola com algumas tentativas mais ofensivas do que os de antigamente (Tyroc que o diga, esse rende um artigo inteiro), algumas ideias de jerico (como o felizmente nunca publicado Black Bomber – um supremacista branco que pode virar um negro e ganhar a força de um negro), um título de blackexploitation que se tornou ótimo (Power Man), vários heróis de legado dignos de nota, uma montoeira de casos esquecidos, e uma série ótima de edições de Green Arrow & Green Lantern, onde Oliver Quinn enfia na cabeça do Hal Jordan que racismo é errado – além de vários heróis que ainda estão por aí.

whitewashingwhitewash1Tanto mudaram que em 2009 a Marvel fez uma correção história ao contar a verdadeira história dos Jovens Aliados, em uma história de Roger Stern, ilustrada por Paolo Rivera – e mostrar que, não, Washington Carver Jones não é o idiota de Young Allies –  o quadrinho é, dentro do Universo Marvel,  uma obra de ficção e propaganda da época, onde pegaram o apelido do jovem (bem educado, afluente e um tanto esnobe) “Wash” e usaram para fazer do um negro no grupo a piada ambulante da revista.

O que é uma pena: o Washington Carver Jones da história de Stern, um combatente determinado e bem educado, que se tornou um herói de guerra numa unidade de jovens especialistas (e que não eram crianças como na revista dos anos 40) é muito mais interessante do que o pastelão publicado pela Timely – mesmo reconhecendo a sua época. Até porque, cultura da época ou não, racismo ainda é racismo. Como demonstraram as crianças Nova iorquinas em 1945.

E apesar disso – mesmo sendo um título admitidamente ruim – Young Allies vale a leitura: é um marco do desenvolvimento de histórias em quadrinhos, e um marco de como não fazer personagens de minorias. Ou seja: é bom por tudo que faz errado.

 

 

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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