A pioneira, o projeto, e o processo.

E.C: Pioneira contra a discriminação

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Ainda uma década antes da “Casa das Ideias” lidar de maneira sutil com o tópico em seus X-Men, uma editora hoje já falecida abordava abertamente o racismo e a desigualdade social em seus quadrinhos – e de forma polêmica. Em março de 1953, a E.C. Comics publicava uma obra prima da arte sequencial: “Judgment Day”, de Al Feldstein e Joe Orlando. Uma história breve (apenas sete páginas) sobre um astronauta em visita à um planeta de robôs, onde a sociedade é dividida entre os robôs laranjas e os robôs azuis.

Sem nenhuma diferença fora a pintura, os robôs azuis são dotados de menos direitos, vivém em condições inferiores à seus pares laranjas – em virtude da cor, recebem “educadores” piores, trabalhos degradantes e forçados a viver em favelas e cortiços. Lembrados de que nada os difere, a única resposta dada ao astronauta é “sempre foi assim” – o que faz com que, por ora, sejam rejeitados para integrar “a grande república galática”; São ainda demasiado primitivos em pensamento.

Em uma época em que o racismo era uma coisa natural, e a desigualdade e segregação eram tidas como norma – ainda dois anos antes dos Movimentos por Direitos Civis nos EUA – a história causou polêmica. Não só pela trama, que expunha de maneira incisiva que a única coisa que separava os brancos dos negros era a maneira como o status quo social os tratava, a começar pelo sistema de ensino, mas também pelo final (que resultou nela sendo barrada pela Comics Code Authority, e republicada sem o selo em 1955): a revelação de que o astronauta Tarlton era Negro.

Essa não foi a única história polêmica da E.C lidando contra discriminação; a editora – da qual surgiu a revista MAD – abordou o antisemitismo e os horrores do holocausto em “Master Race” (em que um homem sofre com alucinações de seu passado em Auschwitz – seu passado como um comandante da SS – a trama merece destaque por ser uma das únicas vezes que o holocausto foi abordado pela industria do entretenimento nos anos 50); a romantização da guerra e o mito do herói “pelo lado errado” na semi biografia de Erwin Rommel, “Desert Fox” – mostrando como a pretensa nobreza de um homem não perdoa o mesmo lutar em prol de um sistema atroz tal qual o nazismo; a paranoia anticomunista dos anos 50 em “The Patriots” (em que os cidadãos de uma cidade, temendo que um cidadão que se recusava a sorrir para o pelotão local fosse “um comuna”, o espancam até a morte – sem saber que o homem era um veterano de guerra com paralisia facial).

Parecem coisas tolas e pequenas nestes anos de obras como Palestina, The Great War (Ambas do jornalista Joe Sacco), Maus, Black Hole, Psychiatric Tales, Epileptic  e outras obras com tópicos “controversos”. Mas nos anos cinquenta, em que 100% dos protagonistas de quadrinhos americanos eram brancos, e que o mais perto de “inclusão” de um não branco eram as caricaturas raciais dos quadrinhos de Hergé na Bélgica, ou o igualmente caricato Ebony White, de The Spirit. À época da publicação original de “Judgement Day”, ainda faltavam 14 anos para a publicação do primeiro super herói negro (Pantera Negra, em 1966).

Infelizmente, os anos não foram bons com a E.C. Comics: autora de quadrinhos controversos e uma das expoentes nos dois maiores gêneros da indústria na época – Crime e Terror, com títulos antológicos como “Contos da Cripta” – a E.C foi duramente afetada pela criação da Comics Code Authority, em 1954. Grande parte dos seus títulos não tinham como obter o selo de aprovação da CCA (e portando não podiam ir as bancas) – entre eles, a segunda impressão de Judgement Day, onde os censores da CCA foram explícitos: o astronauta não poderia ser negro, se quisessem o selo.  A solução para contornar o problema foi passar todo o trabalho da editora para a revista de humor MAD – que por não ser no mesmo formato que os quadrinhos à época, não precisava da aprovação.

E para quem acha que o que a E.C fez nos anos cinquenta não é nada de mais… basta olhar para a Marvel e a atual Miss Marvel, Khamala Khan, para ver o quanto ainda resta a ser feito em combate ao preconceito, e em termos de inclusão de minorias nos quadrinhos. Uma das raras personagens islâmicas no mainstream de quadrinhos, Khamala foi recebida em alguns meios ora com piadas (em geral envolvendo homens bomba, ou burqas…), ora com gritos enfurecidos de “empurrando isso goela abaixo”, “cotas”, “Marvel se rendendo a terroristas” e “propaganda islâmica”. Felizmente, parece estar mudando.

Briga! Stan Lee Media X Disney pelos direitos do Homem-Aranha

E falando na Marvel…

spider-man-197x300A Stan Lee Media Inc., companhia de animação fundada pelo lendário Stan Lee em 1998, está aprontando mais uma das suas. A .com fracassada, envolvida em uma disputa legal contra a Disney e contra o próprio Stan Lee pelos direitos dos personagens que ele criou para a Marvel nos anos 60, 70 e 80, agora quer que a gigante do entretenimento prove que é titular dos direitos do cabeça de teia. A Stan Lee Media está envolvida em confusões legais pelos direitos de personagens com os quais nunca trabalho desde que emergiu do seu processo de falência, em 2006. Segundo a empresa, após ser desligado da Marvel em agosto de 1998, Stan Lee teria passado os direitos de todos seus personagens para a companhia de animação. Lee retornou a Marvel em novembro do mesmo ano, cedendo a editora o direito de uso de sua imagem e dos personagens.

O processo contra a disney em particular se arrasta desde 2012, após o sucesso de “Os Vingadores“, quando a SLMI pediu uma indenização de 5,5 bilhões de dólares – a causa foi dada a Disney, em setembro do ano passado. Agora a SLMI aproveitou um processo contra uma companhia de teatro – que estaria usando personagens da Disney, incluindo o Homem Aranha, sem autorização – para novamente alegar ser dona dos personagens. Não bastasse o imbróglio inicial, a empresa está também violando os termos da sentença do último processo: depois de perder em seis cortes diferentes, por mais de 10 anos de processos, a empresa está proibida de entrar com mais ações alegando propriedade dos personagens – em dezembro, ela já havia violado a sentença, também por causa do Aranha.

A industria de quadrinhos sempre sofreu com problemas de direito autoral. E o curso de ação da SLMI é, sinceramente, um insulto à aqueles como Jack Kirby, Bill Finger e a dupla Jerry Siegel e Joe Shuster (criadores do Super Homem, o personagem que estabeleceu o gênero super heróis), que realmente tiveram sua propriedade intelectual tomada pelas editoras. Lamentável. 

Crowdfunding contra o Bullying

Menina DistraídaPara não deixar de fora a produção local… A jornalista e escritora Vanessa Bencz está com um excelente projeto buscando fundos no Catarse. Lidando com o tema sempre atual do Bullying, a escritora agora prepara junto com Fábio Ori e Denny Fischer a Graphic Novel Menina Distraída, a história de uma garota distraída (duh) que vê no desenho uma fuga para o tédio – e que por isso sofre com o bullying na sala de aula.

Como colocado na página do projeto no Catarse, a meta vai muito além do comercial: “A minha intenção é que Menina Distraída cause empatia e, ao mesmo tempo, transmita incentivo. Afinal, todo mundo merece ser tratado com respeito e igualdade. Esta HQ será uma importante aliada na campanha de combate ao bullying nas escolas brasileiras”.

O tema não é exatamente uma novidade para Bencz, autora do Blog Garota Distraída – Leila, a protagonista de Menina Distraída aborda os mesmos temas, dramas e desafios que os relatos autobiográficos da blogueira. É também autora de dois livros, “Memórias de uma jornalista Distraída” (estou notando aí um padrão) e “Relato do Sol”.

Para quem quiser financiar, a campanha de financiamento está aberta até o dia 20 de abril, no site http://catarse.me/pt/meninadistraida.

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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