A mente por trás do vigilantismo

Quadrinho vigilantismo

Vigilante_CloseupO vigilantismo tem sido desde os primórdios um tema farto para histórias em quadrinhos; desde o mais popular super-herói de todos os tempos (Batman, pra quem não sabe) até casos cult como Rorschach, Questão e Senhor A passando por anti-vilões (para quem não sabe: o vilão com motivações que se passariam por nobres) como Comediante, Justiceiro, e o não muito criativamente nomeado Vigilante, o homem de mistério que faz a justiça com “esse que é irmão desse” passou por um grande numero de iterações – mas poucas parecem abordar de fato a mente… conturbada que levaria um cidadão “ordinário” a sair pelas ruas fantasiado “levando justiça” à sua própria maneira. E menos ainda fazem aquela perguntinha básica, mas importante… “isso é heroísmo?”

Sim, o Batman é um personagem altamente complexo; sim, Rorschach (talvez um dos mais desenvolvidos personagens desse tipo em quadrinhos impressos) é uma figura imensamente perturbada, e que serviria de base para livros e mais livros de psicologia. Verdade que muitos deles receberam abordagens mais detalhadas – e que alguns quebraram o molde reacionário do vigilante, para serem mais… instruídos na sua abordagem da violência urbana (vide o Arqueiro Verde) – mas ao mesmo tempo, o padrão do vigilante de quadrinhos acaba um dos mais simplórios: movidos por uma vingança muitas vezes não definida, travestida de “justiça”, patrulhando à revelia das (ou com o aval das) autoridades.

AUG090539-15Se em Batman temos o vigilante mais famoso, e em Rorschach o mais quebrado, o Justiceiro da Marvel é seu exemplo mais extremado (isso é, se ignorarmos a sua contraparte devidamente tratada como um vilão, o Flagelo do Submundo). Enquanto Bruce Wayne opta por apetrechos e pelo mano-à-mano para combater “o crime”¹, nunca matando (salvo na era de ouro dos quadrinhos), Frank Castle travou sua guerra particular contra “os bandidos” com todo arsenal que pode obter; Seguindo o máximo da lógica do “bandido bom é bandido morto”, a solução usual para qualquer que seja o problema envolve espancamentos, tiroteios, explosivos² e tortura – não necessariamente nessa ordem.  Um comportamento que lamentavelmente seria elogiado por uma boa dose da população no Brasil, por sinal. E do mesmo jeito que certos “durões com o crime”, os termos “ressocialização” ou “pragmatismo” inexistem para ele; uma vez bandido, bandido até morrer (e a única sentença é a morte).

Embora sejam figuras por vezes adoradas dentro de seus universos (e certamente amadas por seus fãs), há de se lembrar que o que os vigilantes de quadrinhos fazem não é justiça – é o que se convém chamar de “justiciamento”. Embora mirem em “criminosos”, sua conduta não é mais “ordeira” ou “civilizada” do que a de suas presas – e tanto nos quadrinhos quanto nos seus equivalentes do mundo real, muitas vezes dificulta  a ação da justiça. Não que justiça seja o seu foco: Batman é movido por uma vingança obsessiva, Castle por ódio e vingança. O Questão, Senhor A e Rorschach por fanatismo político e “higiene social”; O Comediante, por sadismo e entretenimento, enquanto o Vigilante era movido pela adrenalina.

tumblr_n0emsdoxGe1qkinreo7_1280Só para encerrar esse texto – breve, superficial, e que convém ao leitor buscar acesso a esses personagens ao longo de toda  sua trajetória (A Morte do Vigilante, em particular, é uma história excelente – assim como Batman Ano Um, a série Punisher Max e a satírica Punisher Kills the Marvel Universe) – quero apresentar um take incrivelmente plausível do vigilante de quadrinhos: Amber O’Malley, a Amazi Girl, de Dumbing of Age. Longe de ser uma figura “heroica”, O’Malley é uma massa ambulante de neuroses, advinda do abuso psicológico constante por parte do pai, experiências traumáticas envolvendo uma tentativa de assalto, e do ex-namorado ter estupidamente  saído do armário na hora-h. O vigilantismo nada mais é que a maneira de uma garota neurótica expressar severos – e problemáticos – impulsos violentos sem ter que lidar diretamente com as consequências. Mas enquanto Batman e Rorschach tem orgulho de suas válvulas de escape – a ponto de referirem a elas como “suas faces verdadeiras”, de certa maneira – a relação de Amber com seu alter ego é uma de ódio, repulsa e vergonha; Amazi-Girl não é uma sublimação de seus ideias, mas uma manifestação de tudo que há de violento e primitivo dentro dela. Uma figura curiosa para um quadrinho sobre universidade.

Aquele que leva a vida a caçar monstros deve cuidar de si para não tornar a si mesmo um monstro. E quando se olha tempo demais para o abismo, o abismo lhe retorna o olhar.

¹Crime é uma coisa meio vaga; como já diz Grant Morrisson, o Batman é um caso em que se vê a liberação catártica da ira de um membro da alta elite contra os excluídos; ao mesmo tempo em que ele caça psicopatas e mafiosos, vários de seus vilões são vitimas de acidentes industriais ou simplesmente desfigurados e empurrados pro crime por isso.

²Castle chegou a detonar uma bomba nuclear. Só digo isso.

Roteirista do Batman faleceu

Untitled-211Mencionando o morcegão… O criador do seriado do Batman nos anos 60 (aquela, com Cesar Romero e Adam West), e primeiro roteirista da série, Lorenzo Semple Jr, faleceu nesta sexta-feira, de causas naturais, aos 91 anos. Atribuído com a tarefa de levar o cavaleiro das trevas para a televisão, e ciente de que não haveria como fazê-lo de forma “séria”, Semple solidificou a popularidade do herói ao optar por uma série que não apenas reconhecia o ridículo inerente dos quadrinhos da época, como o exaltava. Além do roteiro dos quatro primeiros episódios e do filme, atuou como consultor criativo e estabeleceu as regras pelas quais a série deveria prosseguir – entre as quais, que Batman deveria sempre agir dentro da lei. Embora ridicularizada por fãs mais “sérios”, a série tem recuperado popularidade e deve ser lançada em blu-ray este ano. Uma grande perda. Semple tinha em “Batman” o orgulho maior de sua carreira: “Eu acho que Batman foi a melhor coisa que já fiz, incluindo todos os filmões”, declarou em entrevista em 2008.

Os problemas trans, em quadrinhos

Pra encerrar a coluna dessa semana, duas indicações relâmpago: Rooster Tails, do neo zelandês Sam Orchard – uma série de tiras autobiográficas sobre os problemas do dia-à-dia de um homem trans – e que está sendo expandido em um livro sobre a vivência de outros transgêneros, homossexuais e queers; e Sasha, a Leoa de Jubada Brasileira residente no Japão Samie Carvalho – autora também de Amanda a Garota Cientista. Ambas são obras de extrema sensibilidade, lidando com maestria com questões pouco trabalhadas em quadrinhos – e menos ainda na media mainstream. Vale uma checada, e não falarei mais que isso – melhor deixar os quadrinhos falarem por si.

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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