A máscara de Tarn e a relação entre medo e radicalismo.

DJD2Um bocado de tempo atrás, eu escrevi dois textos sobre a caracterização dos líderes dos Autobots e dos Decepticons nos quadrinhos de Transformers da IDW e sua relação com questões de ideologia política. Agora volto a abordar o tema com um personagem menor: o misterioso líder da Divisão de Justiça Decepticon (DJD), Tarn.

Se a carreira de Megatron serve como um exemplo de como a violência e a radicalização podem corromper um ideal político, e a vida de Optimus Prime demonstra o poder a a influência que representações idealizadas tem apesar da realidade do representarem, Tarn nos demonstra outra coisa. Uma coisa frequentemente ignorada ao se discutir o fanatismo de grupos terroristas, ideologias políticas e torcidas organizadas.

 

A capacidade do ódio de se auto policiar e de ignorar as objeções morais de si próprio.

 

Mencionado pela primeira vez em More than Meets the Eye #5 (“Como Ratchet conseguiu suas mãos de volta”) e com a primeira aparição em MtmtE #7 e 8 (“Regras de desengajamento”; “Quem tem medo da DJD”) caçando um homem bomba que falhou em explodir, o líder da DJD é a personificação do fanatismo decepticon. É um torturador liderando torturadores, sem qualquer limites quanto ao tratamento dado aos “traidores da causa”. Até em forma física, Tarn (assim nomeado em homenagem a primeira cidade tomada pelos ‘cons na grande guerra) demonstra sua devoção a causa, cobrindo seu rosto com a insígnia dos decepticons.

mtmte8_panele_by_dcjosh-d5ckvgqAo mesmo tempo, o devotado mantenedor da integridade da causa decepticon é um testamento a decadência dos cons, seu corpo consumido pelo vício em… transformações. A primeira coisa a ser informada do personagem é seu esquema com o médico Pharma para colher T-Cogs (o órgão interno responsável pelas transformações) de pacientes moribundos para repor as suas. E em sua primeira cena, enquanto seus companheiros caminham para fora da nave, Tarn se transforma, se move por alguns metros, e se transforma de volta. Esse traço pode parecer irrelevante, mas diz muito da hipocrisia do gigante.

A importância da causa Decepticon para ele é deixada bem clara após os eventos de Dark Cybertron: após a “deserção” de Megatron, o líder da DJD tenta cometer suicídio via overdose de Nucleon (MtmtE #39, “A Revolução Permanente”). É esta edição que traz as questões dignas de debate quanto ao fanatismo e quanto ao policiamento interno de grupos radicais. Os nomes dos cinco membros “permanentes” da DJD não são nomes: são as cinco cidades a primeiro cair para os ‘cons (Tarn, Helex, Vos, Tesarus e Kaon), e a cada troca, o novo membro assume o nome “faltante”. Isso sugere uma alta rotatividade dentro da divisão.

Dada a eficiência da DJD, e a devoção fanática do grupo a eliminar “traidores”, é viável crer que a causa maior de “trocas” seja o policiamento interno. Essa possibilidade é reforçada pela narrativa pelo motivo real da máscara de Tarn: não é uma forma de demonstrar “lealdade”, mas uma forma de garantir que seus subalternos não consigam ver que ele fecha os olhos para as torturas que estão fazendo . E ironicamente, é homem incapaz de encarar a realidade de seus atos que policia a lealdade do resto, sempre temendo que eles notem sua “falta de dedicação”.

O guardião da lealdade entre os decepticons - incapaz de encarar a realidade do seu trabalho
O guardião da lealdade entre os decepticons – incapaz de encarar a realidade do seu trabalho

A DJD é um exemplo perfeito de como grupos radicais  silenciam qualquer possibilidade de auto-crítica. Ao mesmo tempo em que caçam os “traidores”, os “infiéis” e os “covardes” dentro das fileiras dos Decepticons, cada membro da divisão de “justiça” policia as ações dos remanescentes, assim garantindo que a divisão de mantenha “ideologicamente pura”. Qualquer relutância dentro das fileiras é silenciada pelo temor do que os outros farão caso saibam o que você pensa (como demonstrado pelo temor que Tarn tem que descubram que ele desvia o olhar para a tortura).

Essa mentalidade não é exclusividade da DJD: a combinação de normas institucionais e pressão dos pares desempenha um papel significativo em crimes de guerra, trotes brutais, abusos sistemáticos, atos terroristas, abusos de autoridade e no silencimento de denuncias dos mesmos crimes, devido ao temor de punição e ostracismo caso alguém vá “contra o grupo”.

Em se tratando de grupos fanáticos (de torcidas organizadas a terroristas, milicias, grupos de ódio e similares), o ciclo de violência pode se perpetuar mesmo caso todos os membros sejam contra a ação a ser implementada, por simples medo de serem os únicos a pensar assim. Nessa situação, as racionalizações para os atos se tornam abundantes. “Estamos apenas seguindo ordens”. “É pelo bem maior”. “Estamos fazendo o trabalho do senhor”. “Eles são bandidos”. “São só terroristas”. E por aí vai. Há de se lembrar que a racionalização de atrocidades não se limita aos perpetradores das ditas atrocidades: escolha uma execução extra judicial sem evidências ou um crime de guerra ao acaso, e você vai encontrar centenas de comentários buscando argumentos para defender aquela ação – mesmo que ela seja algo como bombardear uma escola primária.

Quadrinhos tem um potencial enorme para abordar questões sérias, como qualquer forma narrativa. Em apenas 26 páginas, James Roberts fez de um personagem “menor” uma abordagem pontual de como o extremismo se retroalimenta. E ao mesmo tempo, como se ele autoconsome. Tarn é apresentado como um viciado em transformação, mas após os eventos de Dark Cybertron, ele afundou ainda mais no vício, virando um “alcoólatra” depressivo e cínico, incerto do valor de suas ações. E que decide reafirmar seu valor através de mais violência, para eliminar qualquer dúvida (dele e dos outros) quanto a sua lealdade. E como ele planeja provar sua devoção a causa? Simples: matando o maior traidor de todos: Megatron. 

Essa decisão é paradoxal: a forma de demonstrar lealdade aos ideais do Megatron é assassinando o próprio Megatron. Mas o fanatismo não é marcado pela lógica. É marcado por uma profunda relação emocional com a causa. Dessa forma, se permitem paradoxos como matar em nome da vida (caso de ativistas anti-aborto nos EUA); bombardear em nome da paz; cometer atos de violência “em nome do amor de deus”; se permitiu a criação de prisões políticas e a instauração de ditaduras “em nome da igualdade” e “em nome da liberdade”. Para provar que um governo, religião ou causa é “pacífica”, há quem cometa atos de extrema violência – muitas vezes sendo contra os atos que ele mesmo comete. Por que temem que sua causa não seja tão bela quanto creem (e ironicamente, provam não ser).

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Sem “a causa”, a máscara é só uma máscara.

Não há nada muito diferente entre os vários tipos de fanáticos que se dispõe a morrer “pela causa” e para provar sua dedicação. Neste caso, para provar sua virtude ao demonstrar através do derramamento de sangue em nome de um movimento falido que levou seu povo a beira da extinção. A causa é outra – mas é a mesma mentalidade do rapaz alienado que se dispõe a se explodir para provar sua lealdade à “guerra santa”, ou o jovem linchador, ansioso para provar seu valor para seus colegas racistas (e que nem imagina que vários deles possam estar tão inseguros e temerosos quanto ele).

Medo leva pessoas a fazer coisas horríveis que normalmente não fariam. É o assassino da mente, como escreveu sabiamente Frank Herbert, e um poderoso catalisador do ódio. Não a toa, todo grupo extremista trata de garantir que cada membro policie o comportamento de seus colegas, assim prendendo todos em uma teia de medo e garantido que não deixem ninguém ver quando eles viram os olhos para longe.

 

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Sobre Pedro Henrique Leal 68 Artigos
Mestre em Jornalismo de guerra e conflito pelas universidades de Swansea e Aarhus. Tradutor de literatura indie, colecionador de brinquedos, leitor de quadrinhos e fc que ninguém conhece. Mestre das obscuridades.

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