02/08: Dia Nacional do Combate à Humanidade

(O Homem É um Cão Urinando)

Demorei alguns dias para digerir o texto que o Marcus escreveu e publicou aqui no Metranca, mas, após debater com amigos sobre o tema em questão, tive que concordar com a análise feita – o que é algo difícil para mim próprio, um otimista convicto. Nessa mesma época onde estive por refletir sobre como a humanidade é tão fraca de espírito e como a ética é literalmente pisada há tempo por nós (sim, nós mesmos), esse evento caiu sob meus olhos, e se encaixa perfeitamente na discussão. E, veja bem, isso está longe de ser um mero protesto cibernético (vide a nota de divulgação abaixo); basicamente é a nossa mesquinhice de cada dia retratada, a mesma que sempre buscamos dar de ombros quando somos afrontados com a possibilidade da existência de tal.

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“Mais um 02 de agosto se aproxima e em 2017 convocamos todos os correligionários a uma parada estratégica, um ato contra o excesso nauseante e tóxico do humano, um dia de esvanecimento e de não-meditação.

Sozinhos, devemos evitar todo o tipo de presença. Não sejamos vistos. Não sejamos ouvidos. Desapareceremos. Sonharemos com o silêncio, a estaticidade e a auto-anulação consciente. Praticaremos a não-escuta, a não-visão e a não-observação com vistas à utopia da não-ação.

Mesmo que individualmente, não se trata da experiência interior: por mais valiosa que seja, sua produtividade ainda é comunicativa demais, sua angústia espreme palavras e clama ocupação. E é preciso desertificar a cidade e arrancar-nos da Terra; eliminar os índices do humano, liberar os grãos de quietude – alcançar a arte do vazio e a coletividade que nadifica.

Assim, coletivamente nos organizaremos para conclamar todos a um mínimo que seja de decência. No 02 de agosto, em ambientes públicos, longe de uma privacidade que manteremos vergonhosamente como nossa parte maldita no mundo, convocamos o povo ao menos à mudez. E que desliguem seus equipamentos: aparelhos de som, celulares, televisões. Que os carros cessem de roncar e deslocar-se, agressivamente dizendo: conquistamos a velocidade.

Onde há uma televisão ligada, há o humano a bradar “conquistamos a visualidade”.
Onde há uma música tocando, há o humano a bramir “conquistamos a audibilidade”.
Mas A BOCA É O PIOR INIMIGO DO HOMEM.

Impomos nossa vitória ao mundo, fincando na Terra de novo e de novo nossa bandeira, como animais orgulhosos e medrosos, traiçoeiros e paranóicos. E gritamos a sete ventos “isso tudo é nosso”. Mas bradar, bramir, gritar, falar, para que isso? Não nos deixemos enganar.

A boca é a humanidade corrompendo o humano, a má coletividade da espécie se manifestando no indivíduo. O cavaleiro que nos cavalga, a boca, ao qual obedientemente trotamos para lá e para cá, pulando os mais inúteis obstáculos.

Chega. Devemos buscar outras composições. A revelação de inevitável sabedoria: não apenas nós, mas todos os seres e as existências – estaríamos melhor sem isso. E aqui e ali sente-se o desespero do cão domesticado, que agora diz “tenho um dono”, “estou em uma casa”, “estou preso”, “soltam fogos de artifício”… animais que passam também a sujar a paisagem com sua linguagem adotada. Em tempos de Antropoceno, o humano é como o cão Cérbero, com 3 cabeças e 3 falos, a latir e mijar incessantemente enquanto anda.

Quanto a isso, sejamos firmes e determinados. Arranquemos de nós nossa ocupação que nos impõe sobre tudo. Construamos uma liberdade de espaço que devolva ao entorno a lenta abertura do cosmos. Despovoar o tempo.”

 

Texto e conceito por Henrique Iwao

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